REUTERS/Jonathan Ernst
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Otan inaugura escudo antimíssil no Leste Europeu

Na cúpula da aliança atlântica, em Varsóvia, líderes anunciam envio de tropas para região do Báltico, mas se dividem quanto à ameaça russa

Andrei Netto, CORRESPONDENTE / PARIS

08 Julho 2016 | 21h32

PARIS- A tensão entre Ocidente e Rússia foi o tema central da cúpula da Organização para o Tratado do Atlântico Norte (Otan), aberta ontem, em Varsóvia, na Polônia. Realizada pela primeira vez em uma capital do antigo bloco soviético, 28 chefes de Estado e de governo anunciaram a entrada em funcionamento do escuto antimíssil no Leste Europeu e o deslocamento de mais 4 mil soldados para a região.

Segundo o presidente dos EUA, Barack Obama, o reforço de tropas é para enfrentar o que ele chama de “ameaça russa”. A relação da aliança atlântica com a Rússia, ainda hoje considerada sua principal rival, e o reforço da presença militar ocidental na região já vinham sendo anunciados como os dois grandes temas da agenda. 

As tropas, que serão enviadas por Alemanha, Reino Unido e Canadá, ficarão estacionadas na Polônia e nos países do Báltico, considerados os mais ameaçados pelo novo cenário geopolítico e militar no Leste Europeu. 

Os efetivos, de acordo com Elissa Slotkin, secretária-assistente de Defesa para Segurança Internacional dos Estados Unidos, “constituem o mais vasto movimento de pessoal da Otan desde o fim da Guerra Fria”.

A tensão regional ocorre em razão da atuação da Rússia, chefiada por Vladimir Putin, na anexação da península da Crimeia e na guerra na região de Donbass, que desestabilizaram a Ucrânia. Ontem, o atrito entre Ocidente e Rússia voltou a aparecer nos discursos durante a cúpula. 

Em artigo publicado no jornal britânico Financial Times, Obama acusou a Rússia de representar uma ameaça. “A agressão da Rússia à Ucrânia ameaça a nossa visão de uma Europa inteira, livre e em paz”, afirmou o presidente americano, que defendeu a manutenção das sanções contra Moscou. “Assim como nossas nações permanecem abertas a uma relação mais construtiva com a Rússia, deveríamos concordar que as sanções devem continuar até que Moscou cumpra integralmente as suas obrigações no âmbito dos acordos de Minsk”, disse Obama, referindo-se aos termos do cessar-fogo na Ucrânia.

Divergências. Em Varsóvia, a opinião não foi unânime. O presidente da França, François Hollande, foi na linha oposta ao americano, afirmando que não vê Moscou “nem como um adversário, nem uma ameaça”. “A Otan não tem nenhuma vocação para pesar nas relações que a Europa deve ter com a Rússia. Para a França, a Rússia não é nem um adversário, nem uma ameaça”, afirmou o chefe de Estado francês, que ainda discute o que fazer com as sanções econômicas a Moscou.

Também com um discurso mais moderado, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, ressaltou a necessidade de restabelecer uma melhor comunicação com o Kremlin. “Nós queremos acentuar o diálogo”, disse a chanceler.

Para o secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, a organização “não está em busca de confronto”, mas busca um “diálogo construtivo” com a Rússia e “não quer uma nova Guerra Fria”. 

Os panos quentes em alguns discursos de líderes na Otan, porém, não devem amenizar a resposta de Moscou, que protesta contra a movimentação militar ocidental nas proximidades de suas fronteiras, em especial contra o escudo antimíssil. 

Além de Rússia e Leste Europeu, dois outros temas ainda têm destaque na agenda da cúpula, que se encerra neste amanhã: os gastos militares dos países-membros e a saída do Reino Unido da União Europeia. 

Ontem, Stoltenberg reforçou a necessidade de que os 28 países do bloco militar respeitem o compromisso de investir 2% do PIB em orçamentos militares. Apenas cinco dos membros da Otan respeitam o engajamento, que deveria ser aumentado para 3% em 2016.

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