Otan precisa de um sistema antimísseis

Mecanismo de defesa integrado daria segurança ao continente e traria benefícios a baixo custo, além de ser uma chance de aproximar Europa e Rússia

ANDERS FOGH RASMUSSEN THE INTERNATIONAL HERALD TRIBUNE, O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2010 | 00h00

Para a maioria das pessoas na Europa, a ameaça de um ataque de mísseis raramente aparece no radar. Quanto aos que se preocupam com isto, alguns se perguntam qual será seu custo, se a ameaça é real ou se um escudo de defesa antimíssil funciona de fato.

Em novembro, os líderes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) se reunirão em Lisboa para decidir se a aliança deverá construir um escudo de defesa antimísseis para a Europa. Essa difícil decisão terá de ser tomada com base nas respostas a algumas perguntas fundamentais.

Existe uma ameaça? Em uma única palavra, sim. Os mísseis representam uma ameaça cada vez maior para as nossas populações, territórios e forças militares. Mais de 30 países já adquiriram ou estão adquirindo mísseis que poderão ser usados para transportar não apenas ogivas convencionais, mas também armas de destruição em massa.

Alguns destes mísseis já podem alcançar cidades europeias. E o problema se agravará. A proliferação dessa capacidade não significa necessariamente que exista o intuito imediato de nos atacar. Entretanto, significa que temos a responsabilidade de proteger nossas populações. Não podemos permitir que nem mesmo uma de nossas cidades seja atacada. Assim como não podemos nos tornar reféns da ameaça de um ataque.

A defesa antimísseis funcionará? Construir uma defesa eficaz contra mísseis é um desafio, mas é algo que pode ser feito. Hoje, podemos instalar sistemas completos que foram testados com sucesso.

Além disso, a Otan tem uma longa experiência no desenvolvimento e operação de sistemas de defesa aérea integrados. Já estamos trabalhando para aprontar uma defesa antimísseis para a proteção de nossas tropas enviadas para operações. Ampliando esse programa e ligando-o aos sistemas de defesa dos EUA, a Otan poderá também defender as populações e os territórios europeus de ataques.

Quanto custará? Um sistema desses não é barato, mas tampouco quebrará a banca. O atual programa da Otan para dotar com um sistema de defesa antimísseis as tropas enviadas para operações tem custado US$ 1,112 bilhão ao longo de 14 anos. O custo será dividido por todos os aliados. Por cerca de US$ 278 milhões a mais do nosso orçamento comunitário, ao longo de 10 anos, o programa poderá ser ampliado para permitir que a Otan defenda as populações e os territórios europeus.

Numa época de aperto orçamentário, será um sistema de defesa extremamente eficiente por uma cifra aceitável. Com um investimento relativamente pequeno, todos os aliados poderão se conectar ao sistema multibilionário americano, usufruir dos mesmos benefícios, uma maior segurança, e demonstrar o compromisso de todos com a nossa defesa recíproca: um retorno bastante atraente para um investimento.

Quais são os benefícios? Em termos militares, um sistema integrado desse gênero proporcionará uma capacidade geral maior do que a oferecida pelos sistemas de defesa de cada país individualmente. Compartilhando dados disponíveis em todo o sistema, teremos um quadro comum do que está ocorrendo em nosso espaço aéreo.

Conectando todos os sistemas, teremos oportunidades múltiplas coordenadas para deter um míssil que se aproxima, em vez de cada nação tentar defender-se por conta própria. Os benefícios políticos são igualmente importantes. Será uma clara demonstração de solidariedade dos aliados e de sua disposição de compartilhar a mesma responsabilidade diante de uma ameaça comum.

Além disso, oferecerá a oportunidade de autêntica cooperação com a Rússia. A relação entre Otan e Rússia no setor de defesa antimíssil será o prenúncio de uma nova era de cooperação genuinamente sob o mesmo guarda-chuva de segurança euro-atlântico.

Minha conclusão é clara. Precisamos proteger nossas populações e territórios da ameaça representada pela proliferação de mísseis. A Otan tem a possibilidade de arcar com essa tarefa, e a um custo viável. A cúpula de Lisboa deverá ser a ocasião para a organização tomar a decisão de expandir a capacidade de nos proteger e, ao mesmo tempo, pedir que Rússia coopere conosco e compartilhe dos benefícios. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É SECRETÁRIO-GERAL DA OTAN

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