Olivier Hoslet/Pool via Reuters
Olivier Hoslet/Pool via Reuters

Otan vê risco de conflito na Ucrânia após nova reunião fracassada com a Rússia

Secretário-geral sugere que não há solução para o impasse sobre a principal demanda de Moscou de que a Ucrânia e outros países do Leste Europeu sejam impedidos de ingressar na aliança militar

Redação, O Estado de S.Paulo

12 de janeiro de 2022 | 20h00

BRUXELAS - A reunião entre a aliança militar liderada pelos Estados Unidos e o governo russo sobre a crise na fronteira com a Ucrânia terminou sem acordo, deixando ainda mais tensa a crise de segurança na Europa. "Há diferenças significativas entre a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e a Rússia, que não serão fáceis de acomodar, e há um risco real de conflito armado na Europa”, disse Jens Stoltenberg, secretário-geral da Otan. Apesar do tom sobrio,  Stoltenberg disse que “é um sinal positivo que todos sentaram à mesas e conversaram sobre os tópicos”. 

Stoltenberg sugeriu que não havia solução para o impasse sobre a principal demanda da Rússia de que a Ucrânia e outros países do Leste Europeu, bem como outros ex-Estados soviéticos, sejam impedidos de ingressar na aliança militar. Oficiais da Otan já disseram que essa é uma demanda inaceitável. “Tanto a Rússia quanto os aliados da Otan expressaram a necessidade de retomar o diálogo e explorar um cronograma para futuras reuniões”, disse. Como parte das discussões, Stoltenberg disse que a aliança falou sobre controle de armas e abordando “limitações recíprocas sobre mísseis”. 

Ele disse que os 30 países da Otan querem discutir maneiras de prevenir incidentes militares perigosos, reduzir ameaças espaciais e cibernéticas, bem como controle de armas e desarmamento, incluindo o estabelecimento de limites acordados para implantações de mísseis. Mas Stoltenberg disse que qualquer conversa sobre a Ucrânia não seria fácil.

Stoltenberg sublinhou que a Ucrânia tem o direito de decidir seus futuros arranjos de segurança por conta própria e que a Otan continuará a deixar sua porta aberta para novos membros, rejeitando uma demanda importante do presidente russo, Vladimir Putin, de que a organização militar interrompa sua expansão. “Ninguém mais tem nada a dizer e, claro, a Rússia não tem poder de veto”, disse ele.

Aprovar um acordo para impedir a entrada de determinados exigiria que a Otan rejeitasse uma parte fundamental de seu tratado fundador. De acordo com o artigo 10 do Tratado de Washington de 1949, a organização pode convidar qualquer país europeu disposto que possa contribuir para a segurança na área do Atlântico Norte e cumprir as obrigações de membro. Em Moscou, o porta-voz do Kremlin, Dimitri Peskov, alertou que a Rússia espera uma resposta rápida.

A negociadora americana, Wendy Sherman, afirmou que "se os russos deixarem a mesa de negociação, ficará claro que eles nunca foram sérios nas suas intenções". De fato, desde 2019 não havia um encontro do chamado Conselho Otan-Rússia, e ambos os lados romperam relações diplomáticas no ano passado. O fórum foi criado há duas décadas, mas as reuniões completas foram interrompidas quando a Rússia anexou a Península da Crimeia, na Ucrânia, em 2014.

A reunião ocorre depois de conversa no mesmo tom, mas com alguma abertura, ocorrida em Genebra entre russos e americanos na segunda-feira, 10. E antecede um encontro final, nesta quinta-feira, 13, no fórum da Organização de Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), em Viena — essa, enfim, com a presença dos ucranianos.

As conversas nesta semana têm o objetivo de diminuir as tensões sobre a concentração de tropas russas perto da Ucrânia, o que provocou temores de que Putin esteja se preparando para lançar um novo ataque contra o país. 

Resposta 'técnico-militar'

Autoridades relatam que a Rússia deslocou cerca de 100 mil soldados para a fronteira ucraniana e continua a aumentar sua presença militar – mesmo enquanto os funcionários dos EUA, da Otan e da União Europeia prometem consequências severas se a Rússia invadir a Ucrânia. A Rússia nega que planeja atacar, mas Putin acusou a Otan de ameaçar a segurança russa e alertou para uma resposta “técnico-militar” a quaisquer “medidas hostis”.

“Ter conversas com a Rússia é preferível a não tê-las e pode evitar uma guerra”, disse Sam A. Greene, diretor do Instituto Russo do King's College London. Greene disse que ninguém pode prever exatamente quais são os planos ou intenções de Putin e que as discussões não serão “um processo rápido ou fácil”.

“Discussões estratégicas são melhores do que a guerra e podem alcançar melhores resultados para todos do que uma guerra. É um grande empreendimento diplomático”, disse Greene. “É possível que essas posições mudem com o tempo? Sim, é por isso que falamos.”

A embaixadora dos EUA na Otan, Julianne Smith, disse que, em conversas com os Estados membros, “tornou-se claro que nem um único aliado dentro da aliança da Otan está disposto a ceder ou negociar qualquer coisa relacionada à política de 'portas abertas' da aliança”, que permite que qualquer país se junte à organização. Falando em uma ligação com repórteres na terça-feira, Smith disse que “não consegue imaginar nenhum cenário em que isso possa ser discutido”.

Smith disse que uma cúpula de Bucareste, em 2008, concluiu que admitir a Ucrânia e a Geórgia na Otan era uma questão de “não se, mas quando”. Ela chamou as exigências da Rússia de descartar a possibilidade de expansão da aliança para essas nações e outras de um “não começo”.

Peskov, por sua vez, disse que a Rússia vê a política de portas abertas da Otan como uma ameaça e precisa de garantias de segurança juridicamente vinculativas. Ele disse que a Rússia está “aberta ao diálogo”, apesar da situação difícil, mas que “ameaças” de autoridades dos EUA que entraram nas negociações foram inúteis.

Peskov acrescentou que a Rússia esperará a conclusão dessas negociações e a próxima rodada com a OSCE antes de decidir sobre outras ações. “Não gostaríamos de, como as autoridades americanas, despejar ameaças, ultimatos, prever um alto preço a ser pago. Não gostaríamos de ser assim”, disse Peskov.

Exercícios militares

Mais de 10 mil soldados russos no sul da Rússia iniciaram exercícios militares na quarta-feira. Peskov negou qualquer relação entre os exercícios e as negociações do Conselho Otan-Rússia.

As conversas sobre a crise na segunda-feira entre a subsecretária de Estado dos EUA, Wendy Sherman, e o vice-chanceler russo, Serguei Ryabkov, não avançaram. Sherman disse a jornalistas que rejeitou a exigência da Rússia de que a Otan bloqueie a entrada da Ucrânia.

Stoltenberg disse que permitir que novos países se juntem à Otan é um princípio fundamental da aliança. Ele disse estar confiante de que os países membros não cederão a demandas que restringiriam o crescimento da aliança ou a impediriam de proteger seus aliados na Europa Oriental. 

A Rússia também exigiu que a Otan concorde em não realizar nenhuma atividade militar na Ásia Central, Ucrânia, Geórgia, Armênia, Azerbaijão e países não pertencentes à aliança na Europa Oriental - uma exigência que a Otan também disse que não aceitaria.

O embaixador russo em Washington, Anatoly Antonov, disse que os EUA deveriam abandonar sua retórica agressiva de expansão estrangeira e pensar em como as gerações futuras podem viver juntas. “Uma discussão substantiva dos documentos russos que devem ser adotados o mais rápido possível para estabilizar a situação na Europa”, disse Antonov.

Autoridades russas aumentaram constantemente a pressão ao longo de vários meses, ampliando a sensação de crise por meio de movimentos militares, acusações de agressão ocidental, alegações de que Kiev ou Washington estavam planejando provocações contra a Rússia e alertas de que Moscou não esperaria muito para que suas demandas fossem atendidas. 

As queixas da Rússia remontam a 1997, quando a Otan iniciou uma série de expansões ao aceitar países do ex-Pacto de Varsóvia e ex-nações soviéticas.

Putin citou a implementação de mísseis defensivos da Otan na Romênia e na Polônia como uma ameaça à Rússia. No mês passado, a Rússia divulgou uma lista de exigências de garantias de segurança por escrito da Otan, incluindo um pedido para a remoção de toda a infraestrutura militar da aliança instalada nos países do Leste Europeu após 1997, tentando efetivamente retrabalhar as consequências do colapso da União Soviética em 1991, que deixou a Rússia enfraquecida por anos./ NYT, W,POST, AP e REUTERS

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