Otimistas, egípcios participam de sua primeira eleição presidencial livre

Após Mubarak. Exército reforça presença na capital e nas principais cidades do Egito; cerca de 13 mil promotores e juízes ficam responsáveis por organizar os eleitores, que votaram em clima de tranquilidade e entusiasmados, apesar da incerteza política

ROBERTO SIMON, ENVIADO ESPECIAL / CAIRO, O Estado de S.Paulo

24 Maio 2012 | 03h07

Livres da ditadura de Hosni Mubarak, mas sob forte esquema de segurança, os egípcios deram ontem início à primeira eleição presidencial democrática de sua história - e do mundo árabe. Não houve registro de nenhum incidente grave até o fim do dia. Quinze meses após a queda do ditador, escolas públicas convertidas em centros de votação receberam eleitores entusiasmados, com forte presença de mulheres.

As pesquisas de intenção de voto divulgadas são pouco confiáveis e, pela primeira vez em 60 anos, os egípcios não sabem que tipo de governo terão daqui para frente. "Prefiro essa incerteza ao sistema que tínhamos até a revolução", diz Fouad Saber, mecânico de 50 anos. Ele levou 15 minutos para votar no ex-chanceler Amr Moussa, em um colégio do bairro de Mukatam.

A disputa está dividida entre quatro candidatos, todos islâmicos ou ex-integrantes do regime Mubarak. O primeiro turno continua hoje até às 20 horas (15 horas em Brasília) e é improvável que alguém consiga mais de 50% dos votos. O segundo turno está marcado para junho.

O Estado percorreu várias seções eleitorais no Cairo, de bairros ricos a zonas miseráveis, de redutos da Irmandade Muçulmana a regiões com grande população cristã. Em todas, a cena era a mesma: eleitores aguardavam tranquilamente o momento de entrar na sala de votação, onde marcavam a cédula, depositavam o voto e deixavam sua impressão digital na ata dos mesários.

A segurança foi feita pelo Exército, que teve presença reforçada na capital e nas principais cidades do país. Cerca de 13 mil promotores e juízes ficaram responsáveis por organizar os eleitores.

A última eleição presidencial do Egito foi em 2005, com Mubarak - uma votação controlada, da qual já se conhecia de antemão o resultado. "Recusei-me a votar naquele circo ridículo. Todo mundo sabia que Mubarak seria o ganhador com quase 90% dos votos", lembra Amina Genena, vendedora de roupas de 35 anos.

O Estado presenciou apenas um incidente nos locais de votação, rapidamente resolvido por militares. Em uma seção eleitoral para mulheres (a votação é separada por sexo), um jovem que aguardava a mãe foi acusado de fazer propaganda da Irmandade Muçulmana. Depois de gritar com o rapaz, uma senhora na fila saiu pisando firme e retornou com dois soldados. O garoto foi embora escoltado.

O Conselho Nacional de Direitos Humanos, uma das mais de 50 ONGs que monitoraram a votação, relatou problemas pontuais, como demora na entrega de urnas e campanhas em locais de votação. Ao todo, 50 milhões de egípcios têm direito a voto e a expectativa é que o comparecimento supere os 60%.

Mahmoud Saad, diretor de uma escola usada como centro de votação em Shorbagy, bairro miserável do Cairo, teve de adiar os exames finais dos alunos por causa da eleição. "Fizemos isso com prazer", garante.

Ele acompanhava ontem os mesários e militares, arrastando carteiras e providenciando chá para as autoridades. Saad diz que votou no islâmico moderado Abdel Moneim Abou Fotouh, pois só ele "sabe que precisamos refazer a educação no país".

Elite. O movimento na escola de Saad era similar ao dos centros de votação de Heliópolis, um dos bairros mais ricos do Cairo, que abriga a antiga residência de Mubarak - hoje vazia. Hisham Taha, economista de 57 anos do Bank of House and Development, elogiou o funcionamento de sua seção eleitoral.

"Está melhor do que nas eleições parlamentares, pois as pessoas já entenderam como votar", conta. Ele escolheu Ahmed Shafiq, último premiê da ditadura. "Acho que é o único que pode colocar as coisas nos trilhos. Mas aceitaremos a pessoa que vencer."

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