"Ou a vitória ou o Paraíso", dizem rebeldes chechenos

"Estamos dispostos a morrer, não faremos concessão alguma; nossas condições são a retirada das tropas russas da Chechênia", disseram os rebeldes chechenos entrincheirados, desde ontem à noite, no teatro Dubrovka de Moscou, a dois jornalistas da agência de notícia Ansa que conseguiram entrar nesta manhã no edifício, apesar do forte cerco das forças de segurança russas. Os jornalistas Giulio Gelibter e Roberto Scarfone conseguiram ultrapassar a barreira dos postos de bloqueio, dos grupos especiais, dos veículos blindados e dos agentes do serviço secreto russo, o FSB. A praça em frente ao teatro estava vazia e se observavam veículos abertos, abandonados às pressas por seus ocupantes a fim de afastarem-se do lugar. Um grande silêncio reinava na área, apesar da concentração, a apenas algumas dezenas de metros, de um forte dispositivo de segurança. As portas do teatro estavam fechadas, os vidros quebrados e por toda a parte se viam restos de projéteis, dentro e fora do edifício. Os dois jornalistas furaram o cerco e entraram no saguão do teatro, que estava deserto, gritando: "Somos da imprensa italiana". Subiram ao primeiro andar do edifício guiados pela voz dos guerrilheiros, com os quais começaram a dialogar antes de vê-los.Logo apareceram quatro rebeldes armados, aos quais em seguida se somou um quinto, com o rosto descoberto e um revólver na mão. "Joguem fora os cigarros", exigiu um dos rebeldes, o mais nervoso de todos, aos jornalistas, que foram autorizados a fazer perguntas e anotar respostas. "Nosso pedido é apenas um: que se inicie rapidamente a retirada das tropas russas da Chechênia", disse o único guerrilheiro que mostrava o rosto - um jovem que não se barbeava há pelo menos dois dias, vestido, como todo o grupo, com uniforme cáqui. Os outros quatro, vistos pelos repórteres, usavam lenços sobre o rosto. "Viemos aqui para morrer, portanto ou vencemos ou vamos para o Paraíso. Ou a vitória ou o Paraíso", disse o guerrilheiro de rosto descoberto, que se tornou o interlocutor do grupo. "Não queremos negociação alguma nem diálogo algum, viemos com objetivos concretos", acrescentou, e confirmou que o comando que ocupou o teatro pertence ao grupo de Movsar Barayev. Quando lhe perguntaram se Barayev estava no teatro, o guerrilheiro respondeu: "Sim". Em dado momento, um dos homens armados com um fuzil Kalashnikov e pistolas automáticas afastou uma cortina escura, deixando passar três mulheres vestidas de negro, como as muçulmanas, com o típico véu que só deixa ver os olhos. Mas as mulheres abriram o manto negro deixando entrever uma faixa negra enrolada na cintura, cheia de explosivos.As mulheres, viúvas de guerrilheiros mortos na Chechênia, permaneceram em silêncio. O guerrilheiro disse: "Também elas estão dispostas a morrer, a deixar-se explodir em nome de uma Chechênia independente". Nesse diálogo, os chechenos asseguraram que "ninguém morreu ou ficou ferido", nem entre os reféns nem entre os guerrilheiros, embora em seguida tenha se confirmado a morte de uma mulher capturada. Os jornalistas perguntaram se poderiam falar com os reféns, mas a resposta foi negativa: "Não, agora vocês devem ir embora, e digam a todos que resistiremos aqui até o final". Foram dispensados com um lacônico "Vão com Deus". Após abandonarem o edifício, os dois jornalistas foram detidos por divisões especiais da polícia e conduzidos ao comando de operações, onde foram interrogados durante aproximadamente uma hora. A este primeiro interrogatório se seguiu outro de quase duas horas, desta vez a cargo do FSB, a uma distância de 1 km do primeiro posto, num trajeto percorrido a pé. Os funcionários se mostraram surpresos pelo fato de os jornalistas terem vencido as barreiras de segurança e entrado no teatro ocupado - inquietação já sentida horas antes, com a entrada dos guerrilheiros.

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