Ousar sonhar

Transformando calamidade em mudança após Fukushima

Nassrine Azimi, The International Herald Tribune, O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2011 | 00h00

Shinzo Hamai - que assumiu o comando de uma Hiroshima arrasada pela bomba atômica e mergulhada na miséria na primavera de 1947, e, no decorrer de quatro mandatos como prefeito, ajudou a afastar a cidade do limiar do inferno e trazê-la de volta à vida - escreveu em seu livro de memórias que a situação de Hiroshima era tão desesperadora naqueles primeiros meses do pós-guerra que ele e os amigos fundaram um "clube dos sonhadores".

"Por toda parte, nosso olhar via apenas escombros calcinados e os destroços da guerra", escreveu Hamai pouco antes de morrer em 1968. O clube dos sonhadores proporcionou àquele punhado de jovens idealistas um espaço para sonhar com um futuro melhor em meio ao caos de sua cidade destruída.

Hamai, que na época do bombardeio tinha 40 anos, três filhos pequenos e chefiava a distribuição de rações no município, tornou-se o primeiro prefeito da cidade a ser eleito pelo voto popular. Ele cometeu seus erros, mas seus acertos foram muito mais numerosos.

Entre seus feitos podemos citar a transformação de Hiroshima de uma cidade militar em uma mundialmente conhecida cidade da paz; a concessão ao público de todas as terras antes pertencentes ao Exército Imperial por parte do governo nacional; e também o estabelecimento do Parque Memorial da Paz no centro dizimado da cidade, criado por jovens e talentosos artistas e arquitetos do calibre de Isamu Noguchi e Kenzo Tange.

Traduzida recentemente para o inglês sob o título de A-Bomb Mayor (O Prefeito da Bomba-A), a versão original das memórias de Hamai também foi reeditada. Alguns exemplares devem ser entregues às autoridades japonesas municipais e provinciais das áreas mais atingidas pelo terremoto seguido de tsunami de 11 de março - uma silenciosa mensagem de apoio de um político capaz e visionário.

Resta torcer para que alguns exemplares cheguem também aos membros do Parlamento em Tóquio - quem sabe a capacidade de mobilização de Hamai pudesse sacudir os políticos japoneses e tirá-los da apatia.

Passados quatro meses desde o desastre, com a crise na usina nuclear de Fukushima ainda fora de controle, os políticos seguem envolvidos em brigas mesquinhas, aparentemente preocupados apenas com a iminente renúncia do primeiro-ministro Naoto Kan.

Independentemente das limitações do governo de Kan, ele ao menos se mostrou disposto a desafiar o status quo da perigosa dependência japonesa em relação à indústria nuclear. De fato, uma de suas condições para a renúncia é a aprovação no Parlamento de uma lei relacionada às fontes renováveis de energia. Por incrível que pareça, muitos políticos japoneses ainda acreditam que esta crise nuclear não passa de um problema doméstico, merecendo ser tratada como tal - sem perceber o quão irônico é o fato de as políticas energéticas mundiais estarem se transformando justamente por causa de Fukushima enquanto o Japão insiste na fórmula antiga.

Mas, entre as pessoas comuns, Fukushima continua a reverberar. Em emotivo discurso feito durante uma cerimônia de premiação literária em Barcelona no mês passado, Haruki Murakami, o mais destacado dentre os romancistas japoneses contemporâneos, reiterou a crença de que seu país deveria ter tornado seu dever ético rejeitar a energia nuclear após Hiroshima e Nagasaki. Ele disse essencialmente que a conveniência foi empurrada aos japoneses em lugar da realidade, atropelando todas as demais considerações morais e éticas.

Entre meus amigos japoneses, o que mais se vê é uma busca espiritual pela direção que o país deve seguir no futuro. Aqueles que moram no Japão há muito tempo não estão imunes. Um amigo neozelandês confessou recentemente que, pela primeira vez em dez anos, pensou em deixar o Japão. Pai de duas crianças pequenas, ele se sentiu desiludido diante de um sistema que se mostra disposto a distribuir milhares de medidores de radiação às escolas, e se compromete a remover o solo superficial de todos os parques públicos das áreas afetadas, mas não está pronto para questionar a indústria nuclear, nem o tipo de orientação política que levou o Japão à crise atual.

Mesmo entre os líderes do empresariado, a indignação está levando à mobilização. O mais insistente deles é Masayoshi Son, diretor executivo da gigante das telecomunicações Softbank, que manifestou todo seu apoio à causa das fontes renováveis de energia.

Outros, como Soichiro Fukutake, fundador e presidente da gigante editorial Benesse Holdings, têm estado na vanguarda já há algum tempo. O recluso bilionário trabalhou com arquitetos e artistas para articular uma espécie de protótipo para um novo Japão. Sua visão e sua riqueza transformaram várias ilhas do Mar Interior usando o melhor da arquitetura, concebida em harmonia com a natureza e com o envolvimento da população local no longo prazo.

O Japão conta com um talento humano mais do que suficiente em cada setor de sua sociedade para transformar as calamidades recentes numa oportunidade para a mudança. Um momento histórico de tamanha importância e magnitude não pode ser desperdiçado. Mas o país precisa de mais políticos do nível de Hamai para comandar este movimento.

Hiroshima continua a ser transformada pelo legado de Hamai. Em suas memórias, ele escreveu sobre o momento em que brotaram pela primeira vez novos ramos do toco carbonizado de um grande pé de cânfora, no jardim de um templo a cerca de dois quilômetros do epicentro da explosão, descrevendo ternamente o conforto que aqueles humildes ramos verdes trouxeram a uma população desesperada. Com o passar dos anos, Hiroshima designou cerca de 170 árvores distribuídas em 55 locais da cidade como sobreviventes da bomba atômica, oferecendo a elas cuidados e atenções especiais.

Inspirados por esse legado, eu e um grupo de amigos recentemente demos início a uma iniciativa para espalhar por todo o mundo as sementes destas resistentes sobreviventes. Nós a chamamos simplesmente de "Legado Verde Hiroshima".

O discurso de Murakami em Barcelona, intitulado "Sonhadores sem realismo", estava cheio de dor, mas trazia também muita esperança. Expressando fé na capacidade de seu país de se recuperar por meio do "alinhamento do corpo e da mente", disse Murakami: "Não podemos ter medo de sonhar". O prefeito Hamai concordaria com cada uma destas palavras. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É CONSELHEIRA SÊNIOR DO INSTITUTO DE TREINAMENTO E PESQUISA DA ONU

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