Daniel Antunes
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Outdoors de Trump são colocados em Governador Valadares, de onde muitos partem para os EUA

Empresário que pagou pelos cartazes diz acreditar que americano será reeleito e estabelecerá política para os imigrantes: 'Como apoio ele, eu tenho como cobrar isso'

Leonardo Augusto, especial para O Estado

19 de outubro de 2020 | 17h51

BELO HORIZONTE - A imagem do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é vista nas ruas de Governador Valadares, cidade de 280 mil habitantes no leste de Minas Gerais. A aparição de Trump em pelo menos dois outdoors é fruto de intervenção de um ex-morador da região, hoje empresário na Flórida, que pagou pela instalação dos cartazes no município mineiro em apoio ao republicano. Entre os moradores que trabalham ou já trabalharam nos EUA, a reação não foi boa.

Os outdoors, escritos em sua maior parte em inglês, mostram o presidente dos Estados Unidos com o braço levantado com as seguintes inscrições ao lado: "Trump Pence (sobrenome do vice do candidato, Mike Pence) Make America Great Again 2020". Embaixo, também em inglês, foi impresso "Pro God, Pro Family, Pro Life, Pro Israel, Pro Brazil" ("Por Deus, Pela Família, Pela Vida, Por Israel, Pelo Brasil").

A região leste de Minas, que tem Valadares como uma de suas principais cidades, exporta anualmente um grande contingente de imigrantes para o Estados Unidos. A maior parte tenta entrar no país de forma ilegal, via fronteira com o México. Nos voos com deportados brasileiros que chegam a cada 20 dias ao Aeroporto Internacional de Confins, na Grande Belo Horizonte, muitos são da região de Valadares.

Quem pagou pela colocação dos outdoors foi o empresário no setor de comércio na Flórida Edson Delana, de 56 anos, que foi para os Estados Unidos há 30 anos. O empresário mora na cidade de Coconut Creek, no Condado de Broward. "Coloquei o cartaz lá por apoio ao presidente Trump. Por ser de Valadares. Minha família é de Valadares e tem muita gente de Valadares aqui na América. Valadares é beneficiada pelos Estados Unidos", disse o empresário, sem explicar como ocorreria essa ajuda à cidade por parte do governo dos Estados Unidos.

O empresário afirmou acreditar que o presidente será reeleito e que, ele espera, será estabelecida uma política para os imigrantes no país. "Para legalizar os que que não têm documento aqui nesse país. Minha esperança é essa. Como apoio ele, eu tenho como cobrar isso. Quando encontro com qualquer político aqui da área republicana sempre jogo o assunto imigração, para apoiar os imigrantes", justificou Delana.

Críticas

Um ex-imigrante ilegal que passou 10 anos na Carolina do Sul e voltou para Valadares afirma que Trump nunca teve política alguma para imigrantes. "Tenho muitos amigos que ainda estão lá. Todos vivem com medo de ser deportados. O atual presidente dos Estados Unidos não se importa com imigrantes. Não há uma política nesse sentido", afirmou, preferindo não ser identificado. O morador de Valadares entrou nos Estados Unidos ilegalmente via México. Demorou 30 dias para chegar ao país americano, passando pelo deserto, em Laredo. Chegou a ser abandonado pelos chamados coiotes, que cobram para "assessorar" a travessia.

Morador de Massachussets, outro valadarense, que também não quis se identificar, afirmou ter achado "surreal" a colocação de outdoors pró-Tump na cidade. Mas também não acha que Biden, que lidera as pesquisas de intenção de voto, possa melhorar muito a situação dos imigrantes. "Acho que esse cara (Trump) não ganha. Esse outro não é muito bom, mas parece que é um pouco menos duro com os imigrantes", disse.

Apesar de ser comum moradores da região leste de Minas Gerais falarem que são de Governador Valadares, pela importância da cidade na região, Delana na verdade é de São Geraldo do Tumiritinga, um distrito da cidade de Tumiritinga, cidade a 60 quilômetros de Valadares. Pessoas próximas ao empresário ficaram surpresas ao saberem que Delana foi quem pagou pelas peças. "É muita exposição", afirmou um conhecido do empresário ao Estadão.

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