Outra caixa de Pandora?

Alguns países que armaram militantes afegãos contra a antiga União Soviética enfrentam agora os insurgentes radicais que eles mesmos treinaram; erro não pode se repetir na Síria

Nikolai Korchunov, The New York Times, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2012 | 03h07

DAMASCO - À medida que a crise na Síria persiste, ouvimos cada vez mais apelos para armar os rebeldes. A ideia é clara - quanto mais armas nas mãos das forças de oposição, mais rápido o governo sírio cairá. Os autodenominados Amigos da Síria parecem ter decidido que isso é bom para o país, independente da opinião dos próprios sírios.

Os que insistem no envio de mais armas para os rebeldes precisam saber que estss ações inevitavelmente levarão a uma escalada do conflito e a novas mortes. O que lembra um velho e discutível provérbio: "Quanto pior, melhor". Mas armar os rebeldes será realmente melhor? A história mundial nos fornece muitas provas de que uma evolução pacífica é melhor do que uma revolução sangrenta, que é mais fácil fomentar a violência do que eliminá-la. Por que seria diferente na Síria? As pessoas que insistem em armar os insurgentes também parecem acreditar que os princípios da lei internacional e da Carta das Nações Unidas podem ser substituídos pelo oportunismo político. Já presenciamos esta situação na operação liderada pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) na Líbia, quando os países que apoiaram o embargo de armas e assumiram a responsabilidade de implementá-lo estavam ao mesmo tempo fornecendo armas para os oponentes do regime de Muamar Kadafi. E não negaram isso, como se a contradição no campo político fosse algo trivial. Seu argumento foi de que o "mal" tinha de ser combatido por todos os meios possíveis, independente da lei internacional e das suas próprias responsabilidades.

Aparentemente, o "sucesso" na Líbia parece encorajador para alguns, que se veem tentados a contornar o Conselho de Segurança das Nações Unidas. Esse é um precedente perigoso. Em outras partes do mundo, alguns países podem estar ansiosos para usar os mesmos métodos para alcançar suas metas. Se uma nação pode fazer isso, por que outras não poderiam também? Precisamos lembrar que violar acordos, ignorar os princípios básicos ou abandonar decisões adotadas de comum acordo inevitavelmente conduzem à destruição do sistema inteiro da lei internacional. Às vezes não é fácil encontrar soluções reciprocamente aceitáveis, mas honrar nossos compromissos internacionais e cumprir com as regras do direito é a única maneira de manter o mundo estável e seguro.

Não devemos nos esquecer um outro aspecto. Quando você fornece armas para uma força ou facção, não pode estar seguro de que, um dia, elas não serão direcionadas contra você. Para tirar a União Soviética do Afeganistão, determinados países enviaram armamentos e treinaram os insurgentes.

Uma década depois, esses "combatentes da liberdade" mostraram seu verdadeiro rosto. Alguns hoje são inimigos jurados daqueles mesmos países que os ajudaram a se armar. E hoje os esforços de toda comunidade mundial são necessários para combater o demônio do terrorismo internacional.

A mensagem da Rússia é clara. Qualquer disputa deve ser solucionada por meios políticos, pacíficos. Colocar mais lenha na fogueira dos conflitos internos, adotar outras soluções "simples" que violam a lei internacional somente provocarão uma reação em cadeia destrutiva.

Uma vez aberta, será impossível fechar essa caixa de Pandora. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* É REPRESENTANTE INTERINO PERMANENTE DA RÚSSIA NA OTAN

 

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