Outra vez orgulhosos, argentinos votam para consagrar Kirchners

Gratos por recuperação econômica, eleitores do interior e das classes mais baixas deve eleger Cristina presidente

Ariel Palacios e Roberto Lameirinhas, BUENOS AIRES, O Estadao de S.Paulo

27 de outubro de 2007 | 00h00

Os argentinos vão hoje às urnas para - a confirmar-se a quase totalidade das pesquisas - assegurar a continuidade do governo do presidente Néstor Kirchner. Desta vez, por intermédio da mulher dele, a senadora Cristina Fernández de Kirchner. Leia mais sobre as eleiçõesEmbalado principalmente pelo apoio do interior - onde programas assistenciais do governo ajudaram a recuperar a economia após os anos de aperto fiscal de Carlos Menem e Fernando de la Rúa -, o casal Kirchner resistiu às denúncias de corrupção e à escalada da inflação. Assim, Cristina deve obter entre 41% e 49% dos votos. Pela legislação argentina, ela precisa de pelo menos 40% para vencer já no primeiro turno, caso tenha uma vantagem de mais de 10 pontos porcentuais sobre o segundo colocado.A segunda no páreo é a centro-esquerdista Elisa Carrió, candidata da Coalizão Cívica, que tem entre 16% e quase 22% das intenções de voto. Nos últimos dias, Carrió apelou aos indecisos (que na semana passada oscilavam entre 7% e 18%) para dar uma virada e levar o governo a um segundo turno. Nunca na história argentina duas mulheres lideraram as pesquisas presidenciais.Ao Estado, Elisa disse que ainda mantém esperança de que Cristina não chegue aos 40%. ''''As pesquisas mostram que a maioria da população, mais de 50%, quer a vitória da oposição'''', afirmou. ''''Ela é Golias, eu sou Davi.''''Vinte e sete milhões de argentinos estão inscritos para a eleição de hoje, que definirão também o vice-presidente, a metade dos ocupantes da Câmara dos Deputados, um terço dos senadores e 8 dos 23 governadores provinciais, além de centenas de deputados locais e intendentes (prefeitos). Os candidatos kirchneristas são favoritos em praticamente todas essas disputas.Kirchner assumiu a presidência em 2003, quando 57% dos argentinos viviam mergulhados na faixa de pobreza. Depois de declarar a suspensão unilateral do pagamento de parcelas da dívida externa, vender títulos da dívida para a Venezuela de Hugo Chávez, promover a retomada do crescimento do país e investir pesado nos programas sociais destinados à população mais pobre, Kirchner conseguiu reduzir o índice de pobreza para 27%, em 2006. Durante seu mandato, o país tem crescido em média 8% por ano. Em 2002, o salário mensal médio dos 10% mais pobres era de 109 pesos (US$ 34); hoje é de 337 (pouco mais de US$ 110).A oposição contesta alguns números, como o da inflação. Oficialmente, o índice acumulado neste ano até setembro é de 9%. Mas consultorias privadas estimam a inflação real em torno de 20%. Independentemente da controvérsia, os resultados econômicos garantem a popularidade do presidente.Segundo as pesquisas, Cristina tem vantagem esmagadora no interior do país e nas classes baixa, média-baixa e média - esta última, recuperada da ruína da crise de 2001-2002. O país, que contava com 14 moedas paralelas emitidas pelas províncias, sem lastro nenhum, atualmente utiliza somente a moeda federal, o peso.APATIAA apatia marcou a campanha eleitoral - que na Argentina é feita com poucos comícios, publicidade paga na TV e nenhum debate entre candidatos. Uma pesquisa da consultoria Delfos indica que a abstenção pode ser de até 30%.Esse seria o nível mais baixo de participação desde o retorno da democracia, em 1983. Naquele ano, 86% dos eleitores votaram. Na eleição passada, em 2003, votaram 78% dos eleitores.Os analistas afirmam que a falta de interesse se deve à pouca diferença de propostas entre Cristina e os candidatos da oposição. Os opositores estão de acordo com os principais pontos da política econômica e apenas sugerem ''''correções'''' no rumo.A campanha kirchnerista usa a imagem de Cristina e o slogan ''''sabemos o que falta e sabemos como fazer''''. Nos táxis, bares e barbearias de Buenos Aires - tradicionais locais de discussões políticas -, o humor ácido dos portenhos não resiste à pergunta: ''''Se ela sabe, por que não contou para o marido?''''A verdade é que a auto-estima dos argentinos renasceu. Kirchner, com esperteza, explorou esse fator na reta final da campanha.O analista Carlos Fara indica que Kirchner é favorecido pela mudança do ânimo dos argentinos em relação ao país e suas vidas pessoais. Kirchner também se aproveitou do cenário de uma oposição fragmentada, sem estímulo e imersa em lutas de egos entre seus líderes (ler mais na pág. 19).O sociólogo Artemio López, diretor da consultoria de opinião pública Equis, destaca que Kirchner foi eleito em 2003 com 22% dos votos. Em 2005, na eleição parlamentar de meio de mandato, os candidatos kirchneristas obtiveram 39% do total de votos do país. López afirma que uma eventual votação de mais de 40% indicaria que os Kirchners estão aumentando e consolidando gradualmente um eleitorado fiel.DENÚNCIASDiversas ONGs denunciaram sexta-feira a presença de nomes de pessoas mortas em listas de eleitores em todo o país. Entre elas, desaparecidos da ditadura (1976-83), além de soldados mortos em combate na Guerra das Malvinas (1982).GLOSSÁRIO DAS URNAS El Pingüino: O Pingüim, apelido de Kirchner em alusão a sua região natal, a PatagôniaLa Pingüina: Apelido de Cristina KirchnerRainha Cristina: Outro apelido da primeira-dama, pela pose considerada arrogante e tom autoritário''''Es too much'''': Expressão em ''''spanglish'''' usada por Cristina para ''''ah, não, isso é demais!''''Inferno e Purgatório: Metáfora referente à ''''Divina Comédia'''', de Dante, normalmente utilizada por Kirchner. Segundo ele, a Argentina está saindo do ''''Inferno'''' da crise e aproxima-se do ''''Purgatório''''La Gorda: Apelido de Elisa Carrió, líder da centro-esquerdista Coalizão CívicaEl Pálido: Apelido do ex-ministro Roberto Lavagna, líder do partido Uma Nação AvançadaEl Sillón de Rivadavia: A poltrona de Rivadavia, denominação da cadeira presidencial. É sinônimo de ''''Presidência da República''''. O nome remete a Bernardino Rivadavia, primeiro presidente argentinoCasa Rosada: Nome da sede do governo, que a partir de 1860 começou a ser pintada de cor-de-rosa. Segundo uma versão, a cor era o resultado do branco e do vermelho, que representavam as duas facções da guerra civil que se seguiu à independência. Outra versão diz que o rosa resultou da mistura de sangue de boi e cal, forma barata de pintar o prédio. A terceira diz que, na época, o rosa era a cor da moda na arquiteturaRadicais-K: Integrantes da União Cívica Radical, rival histórica do peronismo, que se alinharam a Kirchner - como o vice de Cristina, Julio CobosCoima: Suborno preparado, organizadoPESQUISA46,7% dos eleitores devem votar em Cristina Kirchner, segundo pesquisa do instituto Poliarquia 21,8% do eleitorado devem apoiar Elisa Carrió14,3%dos eleitores devem optar por Roberto Lavagna

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