Outro ponto para a Onda Rosa

Eleição uruguaia demonstra que a esquerda na América Latina continua fortalecida

JONATHAN, GILBERT, THE CHRISTIAN SCIENCE MONITOR, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2014 | 02h01

Dezesseis anos se passaram desde que o socialista Hugo Chávez venceu as eleições e chegou ao poder na Venezuela, marcando o início de uma guinada política à esquerda em toda a América do Sul. Nos últimos anos, alguns analistas previram que a "Onda Rosa" subsequente de governos de esquerda na região em breve retrocederia. No entanto, as atuais tendências contam outra história.

No Brasil, Dilma Rousseff, do PT, enfrentou um forte desafio para alcançar sua reeleição no mês passado. Poucos dias antes, na Bolívia, Evo Morales, que era talvez o mais próximo aliado de Chávez, conquistou com facilidade o terceiro mandato. No Chile, eleitores descontentes com o governo de centro-direita elegeram Michelle Bachelet, de esquerda, para seu segundo mandato não consecutivo. E no Uruguai, no fim de semana, Tabaré Vazquez, da Frente Ampla, coalizão de centro-esquerda que governa o país há uma década, venceu confortavelmente o segundo turno da eleição presidencial.

A fórmula da esquerda para seu sucesso combina crescimento econômico, movido a exportações de commodities, como soja e petróleo, e melhoria das condições dos pobres, com redistribuição de riqueza e programas sociais. No entanto, ela também sofreu golpes recentes, como a eleição de um magnata dos negócios no Paraguai, no ano passado, após o presidente Fernando Lugo, que havia prometido uma reforma agrária, ser deposto.

Quando Chávez morreu, ano passado, governos de esquerda de toda a América também perderam seu líder mais carismático e radical. A resistência dos governos de esquerda, porém, aponta para seu enorme progresso no alívio à pobreza, enquanto, em geral, preferem a moderação à sublevação - e resistem a um confronto sério com os EUA. A esquerda teve tanto sucesso que candidatos conservadores estão percebendo que precisam se deslocar para o centro para competir.

"A Onda Rosa dura porque não há confiança de que os partidos conservadores manterão progressos sociais", diz Michael Shifter, presidente do Diálogo Interamericano. "Foi essa a história da última década."

Será o fim de governos conservadores? Após a eleição de Chávez, em 1998, a região se transformou. A taxa de pobreza na América Latina e no Caribe caiu de 42%, em 2000, para 25%, em 2012, segundo o Banco Mundial. Hoje, pela primeira vez, a classe média supera em número os pobres. Por essa razão, muitos partidos de oposição na direita relutam em diluir políticas de combate à pobreza.

O principal candidato presidencial da oposição brasileira em 2014, Aécio Neves, por exemplo, disse durante sua campanha que não reduziria progressivamente os gastos em benefícios sociais de Dilma. Na Venezuela, Henrique Capriles, que perdeu para Chávez em 2012 e para seu sucessor, Nicolás Maduro, no ano passado, também prometeu não desmantelar programas sociais para os pobres.

Na Argentina, candidatos presidenciais que se posicionam para a eleição do próximo ano dizem que conservarão os programas de previdência social - como um benefício principal por filhos - que têm sido a pedra de toque da política do governo por uma década.

Também no Uruguai, o adversário de Tabaré, Luis Lacalle Pou, fez uma promessa parecida. Ele era candidato por um dos dois partidos mais tradicionais do país, que são ambos de centro-direita. Diante do progresso alcançado na presidência da Frente Ampla - a pobreza foi reduzida, de cerca de 40%, para menos 12% - a única maneira de eles lutarem novamente pelo poder é "reconfigurando suas (velhas) doutrinas", de acordo com Agustín Canzani, analista político de Montevidéu.

"Acho muito improvável que haja governos de direita (novamente), no sentido clássico, na América Latina", disse o presidente uruguaio, José Mujica, numa entrevista ao Christina Science Monitor. Mujica foi constitucionalmente impedido de disputar um segundo mandato consecutivo. "Estamos permanentemente preocupados com a desigualdade", disse ele sobre os principais políticos da região.

Não é suficientemente "de esquerda"? Alguns governos de esquerda, contudo, como os de Venezuela, Equador e Bolívia, foram acusados de autoritarismo - seja porque tentaram emendas constitucionais para estender ou eliminar a limitação do número de mandatos presidenciais ou porque retaliaram contra a mídia noticiosa crítica. Outros acusam esses governos de não se inclinar suficientemente à esquerda. Apesar da retórica feroz, das nacionalizações e dos gastos em programas de combate à pobreza, o presidente Evo Morales foi criticado por favorecer uma economia de mercado.

Mujica, que diz ter alimentado o capitalismo para poder redistribuir suas riquezas, também enfureceu os uruguaios que esperavam reformas mais radicais porque ele havia sido um guerrilheiro de esquerda. "Eles se dizem de esquerda, mas tudo o que fazem é mostrar os dentes", diz Gonzalo Acosta, de 57 anos, que vende livros usados em sua banca numa praça central de Buenos Aires. "Não houve verdadeiras revoluções."

No entanto, depois dos dramáticos fracassos das políticas do Consenso de Washington, dos anos 90 - que incluíram liberalização comercial, privatizações e desregulamentação da economia -, para muitas pessoas as melhorias graduais bastam. "Se você compara a região hoje com 15 anos atrás, ela está melhor em cada indicador econômico e social", diz Mark Weisbrot, diretor do Center for Economic and Policy Research, de Washington, que escreve regularmente sobre América Latina. "Acredito que os governos de esquerda durarão muito mais." / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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