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Outros redutos da oposição síria têm 700 mil sitiados

ONU teme massacre de civis em 15 cidades cercadas por grupos armados; para diplomatas, comunidade internacional fracassa

Jamil Chade  Correspondente / Genebra, O Estado de S. Paulo

15 Dezembro 2016 | 21h26

Além do drama em Alepo, outras 15 cidades sírias estão sitiadas, com um total de 700 mil pessoas presas. A informação é da ONU, que nesta quinta-feira, 15, apresentou esses números após uma reunião de suas agências em Genebra, concluindo que a cidade do norte do país pode não ser a última a ver sua população devastada pela guerra. 

Os dados foram apresentados em um ambiente de consternação. Diplomatas disseram que, enquanto discursos eram feitos, negociadores afirmavam em conversas reservadas que os crimes cometidos em Alepo representavam “a falência” da capacidade da comunidade internacional em salvar vidas. 

“Vimos um massacre ao vivo. Se isso não é um certificado do fracasso, não sei o que seria”, admitiu um negociador, na condição de anonimato. As Nações Unidas demonstraram que a maior preocupação, diante da vitória de Bashar Assad em Alepo, é com a possibilidade de a tática de sufocar populações inteiras ser repetida ou usada como “revanche” pelos rebeldes. 

Nas demais 15 cidades que vivem a mesma situação, o destino de Alepo foi considerado “simbólico e assustador”.

“Tememos que o mesmo se repita em Idlib”, admitiu o coordenador dos esforços de ajuda humanitária da ONU na Síria, Jan Egeland, sobre a situação da cidade que acolherá os rebeldes e civis que conseguiram ser retirados de Alepo. Idlib foi tomada por grupos contrários ao governo em março de 2015 e vive um drama humano. 

“Tenho medo do que vai ocorrer quando a atual operação acabar, tanto para a população de Idlib quanto para o restante das áreas contestadas e onde já existem centenas de milhares de pessoas deslocadas”, disse. 

Segundo Egeland, é também dramática a situação de locais como Al-Waer, em Homs, Fua, Kefraya, na periferia de Alepo, e das cidades xiitas cercadas por grupos de oposição. “Civis querem ser resgatados, mas não podem”, alertou. Fua e Kefraya, de maioria xiita, estão cercadas pela Frente Al-Nusra, filial da rede Al-Qaeda, e outros grupos armados.

Segundo a ONU, a crise em Madaya também tem se intensificado, sem postos de saúde e com o inverno chegando. A cidade, de 40 mil moradores, está desde junho de 2015 sob o cerco imposto pelo Exército sírio e pela milícia libanesa Hezbollah. “Não estivemos presentes para ajudar a população síria quando ela mais precisava”, declarou o representante da ONU. “Existem 700 mil pessoas em 15 locais sitiados e eles são um símbolo dessa falta de presença e da falta de proteção”, insistiu.

Egeland afirmou que “todas as partes no conflito são culpadas por bloquear o acesso à ajuda humanitária”. “Não me lembro de uma guerra onde esse problema tenha sido tão profundo na última geração”, disse o diplomata norueguês. 

A frustração em relação aos crimes em Alepo era evidente. “Tentamos ajudar Alepo por meses, mas fracassamos”, disse. “A história de Alepo nessa guerra será uma página negra das relações internacionais. Levaram 4 mil anos para construir a cidade, centenas de gerações. Mas em apenas quatro anos ela foi destruída”, lamentou. “Por 4 mil anos, a cidade deu ao mundo a civilização. E o mundo não esteve lá para ajudar quando ela mais precisou”, completou.

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