Timothy Clary/AFP
Timothy Clary/AFP

Overdoses aumentam nos EUA com agravamento da pandemia

Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) calculam que o número de mortes por overdose - essencialmente devido aos opiáceos que inundaram o país nos últimos anos - aumentou quase 25% entre julho de 2019 e julho de 2020

Redação, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2021 | 15h00

HOUTZDALE, EUA - "As drogas estão por todos os lados na região, mas eles só pensam na covid", lamenta Beverly Veres, mãe de dois jovens viciados em heroína, desesperada ao ver que os serviços de saúde estão monopolizados pela pandemia, quando os Estados Unidos enfrentam um novo aumento de overdoses.

Beverly, seu marido Steve e seus filhos Douglas, de 24 anos, e Charles, de 29, vivem em uma pequena casa em Houtzdale, um distrito do condado rural de Clearfield, na Pensilvânia, longe das cidades de Pittsburgh e Filadélfia.

Neste condado de abundantes florestas e casas isoladas, o coronavírus deixou oficialmente 114 mortos em um ano. Porém, é muito menos visível do que na cidade: Steve e Beverly afirmam ter estado uma única vez em contato com uma pessoa que contraiu o vírus, mas tiveram "uma dúzia de interações" com viciados em drogas. 

Depois de verem seus filhos se afundando no consumo de heroína no verão de 2020, eles estão certos de que a pandemia exacerbou o consumo de droga em sua região. Os números de mortos por overdose em 2020 ainda são parciais, mas os 19 óbitos contabilizados no condado já superam o total de 2018 e 2019. 

A tendência se repete em todo os Estados Unidos: os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) calculam que o número de mortes por overdose - essencialmente devido aos opiáceos que inundaram o país nesses últimos anos - aumentou quase 25% entre julho de 2019 e julho de 2020.

'Descida aos infernos'

Segundo Beverly, seu filho mais novo Douglas possui há muito tempo um problema de dependência dos opiáceos, embora "tenha melhorado". Mas o cenário mudou. Primeiro devido às metanfetaminas e, depois, em julho passado, pela heroína, uma verdadeira "descida aos infernos", disse.

Preso no começo de 2020 por dirigir sob o efeito das drogas, ele não recebeu nenhum tratamento na prisão devido à covid-19, contou Beverly. A cura com a desintoxicação que tentou fazer após sair da prisão não funcionou, segundo ela, em parte porque as visitas e sessões de terapia familiar foram canceladas, também devido à pandemia. 

A alguns quilômetros dali, Savannah Johnson, ex-viciada de 26 anos, conta que correu o risco de uma recaída nas drogas no início da pandemia. 

No início de 2020, após um ano de cura com desintoxicação, incapaz de retomar seu emprego de enfermeira, ela aceitou um pequeno trabalho em uma pizzaria. Mas foi demitida logo depois por causa do coronavírus.

Isolado, um ex-viciado tende a idealizar o período em que se drogava, explica Savannah. "Quanto mais você pensa nisso, mais desejo você tem de voltar a consumir". 

'Sobrecarregados'

Com a pandemia, os problemas de vício "explodiram", destaca Kim Humphrey, diretora nacional da associação de pais Parents of Addicted Loved Ones. 

"Você não pode trabalhar, não pode ir para nenhum lugar, não pode fazer isso, não pode fazer aquilo, é compreensível que alguém que esteja nisso diga 'vou simplesmente tomar algo que me tire a dor, que me impeça de me deprimir'", explicou.

No entanto, antes da pandemia, a crise dos opiáceos e a onda de overdose que deixou cerca de 500 mil mortos nos Estados Unidos desde 1999, sendo 50 mil em 2019, parecia a caminho da estabilidade.

Antes de março de 2020, "a crise dos opiáceos era o principal problema dos serviços de saúde pública" e "começava a fazer progressos", disse Marcus Plescia, médico da organização ASTHO, que reúne as autoridades de saúde de todos os Estados do país. Mas hoje "os serviços estão completamente absorvidos pela covid. Todo mundo está sobrecarregado", lamentou./AFP 

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