Raul Arboleda / AFP
Raul Arboleda / AFP

Pablo Escobar, um legado que resiste à morte

Morto há 25 anos, narcotraficante colombiano mais temido dos anos 90 ainda divide opiniões em Medellín

Lina Vanegas / AFP, O Estado de S.Paulo

02 Dezembro 2018 | 18h38

MEDELLÍN, COLÔMBIA - Enquanto no bairro Pablo Escobar os moradores preparam homenagens ao homem que lhes deu as casas onde vivem, a prefeitura de Medellín finaliza os detalhes para derrubar o que foi a residência do narcotraficante mais temido do mundo, 25 anos após sua morte. 

Ícone da opulência e do poder da máfia colombiana, os oito andares abandonados do edifício Mónaco, bunker que protegeu a família do narcotraficante nos anos 90, cairão em um espetáculo aberto ao público em fevereiro. “O Mónaco se tornou um símbolo da apologia ao crime. Mais do que demolir um edifício, é demolir uma estrutura mental”, disse Manuel Villa, secretário da prefeitura.

Todos os dias, turistas visitam o prédio construído em El Poblado, um dos bairros mais exclusivos da cidade. Nos “narcotours”, eles observam deslumbrados o que será um parque dedicado às vítimas do narcoterrorismo. 

Há 25 anos, em 2 de dezembro de 1993, os meios de comunicação revelavam a imagem do corpo de Pablo Escobar estirado em um telhado e rodeado de policiais sorridentes, que exibiam seu cadáver como um troféu. Desde então, a data de sua morte divide a sociedade entre repúdio e admiração, dor e gratidão. 

Sobreviventes

Ángela Zuluaga não conheceu o pai. Estava na barriga da mãe quando, em outubro de 1986, pistoleiros atacaram o carro onde estava a família. Mataram a tiros o juiz Gustavo Zuluaga e deixaram sua esposa ferida. A razão: ele emitiu uma ordem de captura contra Pablo e seu primo, Gustavo Gaviria. Embora tenha recebido ameaças e tentativas de suborno por três anos, Zuluaga disse que preferia “morrer a fraquejar”. 

Para a família, demolir o Mónaco é combater “a cultura do tráfico”. “Ter um espaço para lembrar é ressarcir, simbolicamente, os que são vítimas deste flagelo do narcoterrorismo”, disse Ángela. 

Defensores

Luz María Escobar troca a lápide de seu irmão no cemitério Jardines Montesacro. Ela mesma redigiu a inscrição. Em meio às lágrimas, lê em voz alta para um grupo de turistas. “Para além da lenda que hoje simbolizas, poucos conhecem a verdadeira essência de sua vida”, recita. 

Para Luz María, apesar de seu irmão Pablo ter cometido erros, seu lar deve seguir de pé. “Derrubar o Mónaco não apagará a história de Pablo”, disse a caçula dos Escobar Gaviria. Para a prefeitura, porém, o pedido é inviável. O custo da remodelação do imóvel supera US$ 11 milhões. Derrubá-lo e construir o parque custará US$ 2,5 milhões. 

Herói

Os moradores do bairro Pablo Escobar vivem a data com nostalgia. O “Robin Hood colombiano” os tirou do lixão, onde sobreviviam, e lhes deu casas – 443 no total, em uma montanha de Medellín. “Para mim, primeiro Deus. Segundo, ele”, disse María Eugenia Castaño, dona de casa de 44 anos, que acende uma vela no altar decorado com uma foto de Pablo. 

Yamile Zapata trabalha no salão de cabeleireiro El Patrón, um pequeno estabelecimento dedicado a Escobar. “Pablo confunde. Se você se basear no que era bom, então ele era muito bom. Se procurar o mal, ele era muito mal”, disse Yamile.

O edifício Mónaco cairá em 4 segundos e se transformará em escombros. Sua estrutura extravagante mostra a vontade de Escobar de ascender socialmente. “Vai doer, mas será a única forma de começarmos a curar uma ferida”, afirmou Villa, que está na contagem regressiva para a demolição.

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