''PAC colombiano'' resgata Medellín das mãos do tráfico e das milícias

Modernos teleféricos, praças e escolas ajudam a transformar bairros pobres em modelo de combate à violência

Ruth Costas, O Estadao de S.Paulo

23 de março de 2008 | 00h00

O que mais chama a atenção quando se desce em Santo Domingo Savio, a última estação de um dos teleféricos da periferia da cidade colombiana de Medellín, é a ausência de policiamento ostensivo. O teleférico, que recebeu o nome de Metrocable (algo como metrô por cabo), foi inaugurado em 2006 como parte de um projeto para superar os problemas causados por narcotraficantes, matadores de aluguel, paramilitares e guerrilheiros, cuja ação transformou a vida na Colômbia numa batalha campal nos anos 80 e 90.''Com o Metrocable conseguimos levar serviços públicos e alternativas de vida para locais onde o Estado simplesmente não chegava'', diz Carlos Augusto Hernández, gerente do programa de Projetos Urbanos Integrais de Medellín, responsável pelo teleférico. ''A estratégia foi desativar a dinâmica que causava violência nos locais mais críticos da cidade e evitar que novos jovens fossem recrutados, para que, com o tempo, não precisássemos mais de tantos policiais e militares.''O Metrocable de Santo Domingo transporta hoje diariamente 30 mil pessoas. Percorrendo 1,9 quilômetro, suas cabines abrem caminho em meio a aglomerações de casinhas precárias e chegam ao topo do morro em menos de dez minutos. A pé, cumprir tal trajeto leva quase uma hora. Foi esse projeto que serviu de inspiração para as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que o governo brasileiro pretende fazer nas favelas do Complexo do Alemão, de Manguinhos e da Rocinha, no Rio de Janeiro.A Venezuela, apesar dos atritos recentes com o país vizinho, também tem planos para implementar três teleféricos semelhantes na periferia de Caracas.Uma segunda unidade, de 2,7 quilômetros, deve ser inaugurada esta semana na Comuna 13, região de Medellín que há apenas seis anos chegou a ser bombardeada pelas forças militares, numa operação para pôr fim aos confrontos entre paramilitares e milícias urbanas ligadas à guerrilha. Mentor do projeto, o ex-prefeito Sérgio Fajardo - um professor de matemática sem partido - terminou seu mandato no ano passado com uma popularidade de 89% e é cotado para substituir o presidente Álvaro Uribe em 2010.Em Medellín, os números falam por si. No início dos anos 90, o índice de homicídios (381 por 100 mil habitantes) rendeu-lhe o triste rótulo de ''cidade mais violenta do mundo''. Em 2002, essa taxa ainda estava em 184, mas em apenas cinco anos caiu para 24 por 100 mil. Obviamente, contribuiu para a redução da criminalidade o desmantelamento do Cartel de Medellín, que sob a liderança de Pablo Escobar transformou os morros da cidade em territórios sem lei dominados por narcotraficantes até 1993.A maior parte do avanço nessa área, porém, ocorreu mesmo nos últimos anos, por uma combinação de três fatores. O primeiro foi o programa de desmobilização de combatentes, que abriu caminho para 10.844 paramilitares se entregarem só em Antioquia (ler abaixo), Estado onde está Medellín, em troca de reduções penais. O segundo foi a pesada ofensiva militar contra guerrilheiros e paramilitares promovida pelo governo Uribe. Batizada de ''Segurança Democrática'', a operação enfraqueceu e afastou dos centros urbanos muitos desses grupos, que antes dominavam grandes porções da Colômbia.Em Medellín, a operação foi acompanhada, ainda, de um reaparelhamento e da renovação completa da polícia - iniciativa que visava a quebrar os laços de cooperação com grupos criminosos.Os projetos e intervenções sociais nos bairros pobres, dos quais o Metrocable faz parte, constituem o terceiro motor da redução da violência - mas, segundo especialistas, sem eles seria impossível consolidar as vitórias conseguidas ao soar de fuzis e escopetas.No total, foram investidos quase US$ 500 milhões na Comuna 13 e na Comuna 1, a de Santo Domingo. O dinheiro foi gasto não só nos teleféricos, mas também em uma série de obras cujo objetivo era melhorar a vida da população da região. Ao redor das estações foram erguidos postos de saúde, bibliotecas informatizadas, creches, instituições de ensino, centros de apoio ao pequeno empresário e parques.Em outros pontos das imensas periferias de Medellín foram construídas mais escolas (no total foram 123), praças e outros espaços públicos projetados por arquitetos colombianos de renome. ''Tentamos implementar um modelo de urbanismo e transformação generoso com todos os estratos da população'', diz o prefeito de Medellín, Alonso Salazar.Em Santo Domingo, o aumento da segurança animou até bancos privados a abrir filiais no topo do morro, local que antes era ponto de encontro de líderes do narcotráfico. O número de pequenos negócios aumentou de 39 para mais de 200 desde a construção do Metrocable. ''Tive de parar de estudar porque a escola ficava numa região na qual não podíamos transitar por causa de brigas entre grupos rivais'', conta Joana Montoya, dona de casa de 21 anos, ao voltar para casa após buscar a filha, de 6 anos,numa brinquedoteca recém-inaugurada. ''Agora já posso andar pela região.''É claro que os imensos desafios criados por décadas de conflito não podem ser resolvidos de uma hora para outra. Sentado numa estação do Metrocable, Arturo de Jesús, de 75 anos, afirma que esperar há quatro anos que o governo o ajude a conseguir lugar para morar. Desde que guerrilheiros das Farc tomaram suas terras, perto da localidade de San Rafael, ele vive de vender balas e cigarro nas ruas de Santo Domingo. ''Pelo menos o movimento por aqui está aumentando e as minhas vendas também'', diz. ''Até turistas vêm conhecer esse outro lado da cidade.''A REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DA PROEXPORTO PAC DE MEDELLÍN 480 milhões de dólaresforam os recursos investidos nos dois bairros de Medellín onde foram construídos os teleféricos123 escolas e colégiosforam erguidos desde 2003, a um custo de mais de US$ 80 milhões50 milhões de dólaresfoi quanto se investiu para erguer cinco bibliotecas informatizadas que estão integradas a centros de apoio a pequenos empresários30% mais arrecadaçãoé o resultado do projeto para regularizar trabalhadores ilegais e reduzir inadimplência, garantindo mais recursos para intervenções sociais800 mil metros quadradosde espaços públicos foram construídos nos últimos cinco anos. São parques, praças e áreas de convivência10.844 paramilitaresse desmobilizaram nos últimos 5 anos em Antioquia, Estado onde está Medellín, como parte de um programa para reduzir a violência24 por 100 mil habitantesé hoje o índice de homicídios da cidade. Nos anos 90, a taxa chegou a 381 por 100 mil

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