Anthony Devlin/Efe
Anthony Devlin/Efe

Pacote britânico prevê Exército contra gangues e controle sobre redes sociais

Criticado pela demora em reagir à onda de saques e depredação que varreu as maiores cidades da Grã-Bretanha, o primeiro-ministro David Cameron apresenta no Parlamento medidas que autorizam militares nas ruas e censura na internet

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2011 | 00h00

ENVIADO ESPECIAL / LONDRES

Após quatro dias de saques e depredações em várias cidades britânicas, o premiê David Cameron anunciou ontem ao Parlamento um pacote de medidas para combater novos distúrbios. A partir de agora, em caso de violência, as Forças Armadas da Grã-Bretanha terão aval para ocupar as ruas do país. Estuda-se ainda a possibilidade de o Estado ter autoridade para derrubar redes sociais e bloquear mensagens de celular.

A nova política do governo conservador pretende evitar que revoltas como as de Londres, Birmingham, Manchester e Liverpool se repitam. Ao mesmo tempo, Cameron tenta reverter a imagem de apatia deixada pelo governo e pela Scotland Yard na rebelião iniciada no sábado, após a morte de um jovem no bairro londrino de Tottenham.

Ontem, o premiê informou que o efetivo de 10 mil policiais deslocados às pressas para Londres, na terça-feira, continuará na capital pelo menos até o fim de semana. Em uma eventual mobilização das Forças Armadas, os militares fariam o controle de multidões, liberando a polícia para o combate à violência.

O plano de Cameron para evitar que internet e celulares sejam usados para organizar novos distúrbios já provoca críticas. O premiê anunciou a formação de um grupo de trabalho integrado por policiais e agentes do MI-5 (serviço secreto britânico) para traçar uma estratégia de monitoramento e corte de comunicações em redes sociais e mensagens de smartphones. "O dispositivo seria colocado em ação quando as autoridades tiverem informações de que estão planejando violência, desordem e criminalidade", disse o premiê.

O governo ainda estuda contratar como conselheiro Bill Bratton, o ex-chefe de polícia de Nova York e Los Angeles, autor do famoso programa de "tolerância zero" adotado nos anos 90 nos EUA.

Mea-culpa. Entre as medidas de efeito imediato, Cameron informou que indenizará proprietários de residências, comerciantes e industriais que tiveram propriedades destruídas. O governo estima que os danos cheguem a US$ 323 milhões. O premiê também orientou a Scotland Yard a divulgar fotografias dos jovens rebeldes que tenham tido suas imagens captadas por câmeras.

Criticado por sua omissão nos dois primeiros dias de distúrbios, quando manteve suas férias na Itália, Cameron fez ontem um mea-culpa. "As táticas usadas não estavam funcionando", reconheceu. "A política tratou demais a situação como distúrbio de ordem pública, em lugar de tratar essencialmente como crime."

O premiê também voltou a falar que a sociedade britânica está "dividida" pelo desrespeito à autoridade dos pais e do poder público.

Apesar das palavras fortes, Cameron não saiu da alça de mira do opositor Partido Trabalhista e até de seus correligionários. Isso porque o premiê manteve o corte do orçamento da Scotland Yard em 20%, como parte do programa de redução do déficit público do país.

Boris Johnson, prefeito de Londres e aliado político de Cameron, voltou a atacar a medida. "A decisão de reduzir substancialmente o número de policiais já era pouco viável. Agora, ela se tornou ainda mais frágil", afirmou.

PRINCIPAIS MEDIDAS

Exército

Batalhão de infantaria de Glasgow, na Escócia, está de sobreaviso desde terça-feira e pode intervir em até 12 horas

Internet

A polícia e o MI-5 estudam interceptar ou cortar a comunicação via redes sociais, como Twitter, e telefones celulares, como o BlackBerry

Corte de benefícios

Governo estuda cortar os benefícios sociais de famílias que tenham integrantes condenados por participação nos saques e depredações

Perseguição a envolvidos

As imagens dos suspeitos flagrados por câmeras de vigilância serão divulgadas à imprensa

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