REUTERS/Enrique de la Osa
REUTERS/Enrique de la Osa

Pacote offline leva TV e vídeos aos cubanos

Negócios de ‘cuentapropistas’ - cubanos que se aventuram na criação de negócios próprios - como o World News flertam com a pirataria

Cláudia Trevisan, Enviada Especial / Havana, O Estado de S. Paulo

15 de agosto de 2015 | 16h51

HAVANA - O World News é um pequeno negócio no centro de Havana que anuncia em sua porta a venda de novelas, filmes, programas de computador, documentários, videoclipes, música, jogos, livros e revistas digitais. O cliente pode comprar itens individuais ou uma compilação reunida no pacote semanal, uma instituição nacional que permite aos cubanos contornar a restrição de conexão à internet e a ausência de TV por cabo para ter acesso a entretenimento e informação produzidos em outros países - de fofocas de celebridades a produções do History Channel.

Nesse universo desconectado, o conteúdo obtido online é distribuído por uma rede de dezenas de intermediários ao redor da cidade, que operam em locais como o World News ou entregam o pacote em domicílio. 

O tradutor Sérgio Mercenit recebe todas as terças-feiras a visita de seu fornecedor, que chega com três HDs externos carregados com um total de 450 gigabytes. Organizados em pastas, os arquivos contêm várias opções de cada categoria de programas, como se fosse uma TV por cabo de dezenas de canais. Essa “assinatura” chega a ter capítulos semanais de 50 novelas diferentes, a maioria latinas. Há dezenas de reality shows e séries de TV populares em Miami. A oferta inclui ainda jogos de futebol, programas de humor, livros e revistas estrangeiras. 

Mercenit, a mulher, Olga, e o filho do casal, Rommel, navegam nesse conteúdo e escolhem o que querem para a semana. Enquanto os dados são descarregados, o “entregador” visita outros 11 clientes no bairro Vedado, um dos mais ricos de Havana. No fim da jornada, ele retorna à primeira casa, recolhendo os discos externos que serão usados na compilação da semana seguinte. Preço: 1 CUC, o equivalente a pouco menos de US$ 1. 

Diante de um computador na World News, o estudante Hector atendeu na tarde de quarta-feira uma sucessão de pessoas interessadas em itens específicos. Eduardo, de 53 anos, queria capítulos de uma novela turca e a cópia de um programa antivírus para seu computador. “Nós só temos acesso a cinco canais de televisão. Quando chego em casa, quero ver algo interessante”, disse ao Estado.

Há 16 anos, Eduardo deixou seu emprego público para entrar no mundo dos cuentapropistas, os cubanos que se aventuram na criação de negócios próprios. Sua Decoraciones Valenicki é especializada em casamentos, aniversários e festas de 15 anos. Antes de entrar na iniciativa privada, ele ganhava 248 pesos (US$ 10) por mês trabalhando como professor. 

Eduardo não disse quanto consegue agora, mas é muito mais do que isso. Em maio, ele expandiu seus negócios, com a abertura de uma banca de venda de flores, em um espaço que alugou dentro em uma loja estatal.

Mesmo com a relativa prosperidade, Eduardo está insatisfeito com a situação do país, como grande parte dos cubanos. “A economia está em total decadência.”

Iniciativa. O World News também está na categoria dos cuentapropistas, mas navega em uma zona cinzenta de semi-ilegalidade. A dona, que não quis se identificar, disse não saber por quanto tempo o negócio sobreviverá. Além de, em tese, escapar do controle oficial, os fornecedores do pacote se alimentam da pirataria explícita. 

Hector, que estuda telecomunicações, copia em CDs músicas e filmes estrangeiros, que custam poucos centavos de dólares. Segundo ele, artistas brasileiros como Roberto Carlos e Zezé de Camargo e Luciano são populares entre os cubanos. Outro hit são as novelas, entre as quais menciona Império, Avenida Brasil, A Favorita e Caminho das Índias.

Apesar de o World News se dedicar à distribuição de programas e músicas obtidas online, não há acesso à internet no local. A identidade dos produtores originais do pacote é misteriosa e alguns suspeitam que eles tenham ligação com o governo. Para baixar a quantidade de dados para alimentar o comércio de conteúdo offline é necessária uma conexão poderosa à rede de computadores, algo inacessível aos cidadãos comuns, a maioria esmagadora dos quais não possui internet.

A suspeita é reforçada pelo fato de o pacote não trazer pornografia nem informações políticas explicitamente contrárias ao governo. Mas esse fato pode refletir o instinto de sobrevivência dos que operam o negócio com a tolerância tácita dos dirigentes.

Variedades. Segundo Hector, a maioria das pessoas está interessada em entretenimento, fofocas sobre celebridades, programas de computador e aplicativos para celulares. Apesar de analistas estimarem que apenas 5% da população cubana têm acesso à internet sem restrições, um porcentual muito maior possui computadores em suas casas, o que alimenta o comércio do conteúdo offline. 

O pacote semanal “clássico” custa 2 CUCs e traz 930 gygabites. Muitos preferem uma versão reduzida ou títulos individuais. Além do entretenimento e informação, o pacote traz o Revolico, um serviço de classificados no qual é anunciada a compra e venda de itens como imóveis, antiguidades, joias, animais de estimação, videogames, carros e ar-condicionado. O site também opera em uma zona cinzenta e inclui a oferta de satélites particulares, proibidos em Cuba. O Revolico pode ser consultado offline pelos que compram o pacote, mas é inacessível na rede em Havana. 

Na quarta-feira, o jornal oficial do Partido Comunista, o Granma, noticiou a criação de um novo serviço online de classificados administrado pela Agência de Informação Nacional. Em mais um sinal de mudança em relação ao mercado, o texto promove o serviço em tom de publicidade malfeita: “Se você quer comprar ou vender um objeto pessoal, uma casa, um automóvel, um celular, computador; permutar sua residência; encontrar emprego no setor estatal ou não estatal ou promover seu negócio, www.ofertas.cu oferece uma nova plataforma, o primeiro (domínio) .cu exclusivamente para publicar classificados e publicidade em um meio de comunicação cubano.”

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