Pacto aproxima Ucrânia do Ocidente

Acordo firmado por líder pró-Rússia em Washington[br]reposiciona país entre as potências da Otan e Moscou

JACKSON DIEHL, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2010 | 00h00

Viktor Yanukovich ganhou destaque na segunda-feira como uma estrela improvável entre as quatro dezenas de líderes estrangeiros reunidas pelo presidente americano, Barack Obama, em Washington, para sua cúpula de segurança nuclear.

O polêmico presidente ucraniano, que chegou ao poder há apenas dois meses, é percebido há muito tempo como o líder do campo anti-Ocidente da Ucrânia. O anúncio de sua vitória, em 2004, numa eleição presidencial fraudulenta, desencadeou a Revolução Laranja pró-democracia em seu país. Mas sua eleição em fevereiro foi incontestável e ele suplantou a combalida coalizão Laranja no Parlamento, instalando seu próprio primeiro-ministro.

Seu anúncio de um acordo com Obama, pelo qual a Ucrânia - herdeira de parte do arsenal atômico soviético e cenário da tragédia de Chernobyl, o pior desastre nuclear da história - desistiria do urânio altamente enriquecido que atualmente utiliza em três reatores de pesquisa, deu ao líder democrata um dos resultados mais tangíveis da cúpula.

O acordo também emitiu os sinais da ambição de Yanukovich de posicionar a Ucrânia entre a Rússia e as potências da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). O pacto indicou que os ucranianos se colocaram ao mesmo tempo fora da aliança ocidental, mas também fora de uma esfera de influência russa.

Yanukovich já tinha delineado sua intenção de abrir mão do estoque de urânio enriquecido a 90% - grau de enriquecimento necessário para a fabricação de armas atômicas, aproximar-se das potências ocidentais e afastar-se da Rússia - numa entrevista na segunda-feira concedida a mim e a Mary Beth Sheridan do Washington Post. "A política da nova administração da Ucrânia é chegar a um equilíbrio correto em nossas relações com a Rússia e com a União Europeia. Queremos ser uma ponte confiável entre a Europa e a Rússia", disse ele.

Parceria. Isso significa, em parte, o fim da política do antigo governo de buscar a participação plena na Otan - uma causa que a aliança endossou em princípio, com o aval do governo do ex-presidente americanno George W. Bush, mas depois deixou em banho-maria.

"As relações entre a Ucrânia e a Otan permanecerão no mesmo nível e com a com a mesma atenção de antes", disse Yanukovich. "A única coisa que mudou é que a Ucrânia, como um não-membro do bloco, não está declarando que quer integrar a Otan." Segundo a avaliação do governo de Yanukovich, a maioria dos cidadãos ucranianos se opõe à participação plena.

"Continuaremos desenvolvendo interesses de parceria", acrescentou.

O governo de Obama foi acusado de negligenciar a Ucrânia quando ela voltou à órbita da Rússia. Obama, porém, foi um dos primeiros líderes estrangeiros a ligar para Yanukovich em fevereiro, logo após sua vitória eleitoral, disseram assessores. Yanukovich disse que foi Obama quem propôs concluir um muito discutido acordo para substituir o urânio altamente enriquecido nos reatores de pesquisa da Ucrânia. E foi Obama quem convidou o novo presidente a Washington para a cúpula desta semana. Com sua pronta aceitação, Yanukovich construiu um vínculo com a Casa Branca para equilibrar sua relação de longa data com o Kremlin. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIONIK

É EDITORIALISTA, FOI COLUNISTA, CORRESPONDENTE E EDITOR DE INTERNACIONAL

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