Pacto com Irã dá chance a Obama

Reforma do sistema de saúde afeta imagem do presidente, mas política externa pode recuperá-la

MARK , LANDLER, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2013 | 02h02

Para o presidente Barack Obama, cuja popularidade e agenda no segundo mandato foram afetadas pela caótica implementação da reforma da saúde, o acordo nuclear preliminar concluído com o Irã, no domingo, é mais do que uma bem-vinda mudança de foco.

Este é também um momento peculiar, no qual a política externa é catapultada para o primeiro plano na Casa Branca e Obama recebe uma oportunidade de traçar um novo rumo para os EUA no Oriente Médio pela primeira vez em mais de 30 anos.

Evidentemente, muito dependerá da possibilidade de um acordo final com o Irã que faça com que Teerã contenha suas ambições nucleares. O próprio Obama disse, no sábado, que "não será fácil, porque enormes desafios continuarão existindo daqui em diante".

No entanto, o simples fato de EUA e Irã assinarem um acordo diplomático, depois de 34 anos de distanciamento, abre as portas para possibilidades geopolíticas que não se apresentaram a nenhum outro líder americano desde Jimmy Carter.

"Independentemente do que se possa pensar a respeito, esse é um acordo histórico", disse Vali Nasr, reitor da Universidade Johns Hopkins. "É um abalo sísmico na região. Provocará a reorganização de todo o tabuleiro."

O desejo de Obama era tirar o Irã do isolamento desde que era candidato. Contudo, o presidente procurou evitar maiores desgastes no Oriente Médio, em parte para que ele pudesse direcionar o olhar dos EUA para a Ásia. Ele visualizou o Irã por dois prismas: o objetivo de conter a difusão de armas nucleares e o seu desejo de evitar envolver os EUA em outra guerra.

Na sexta-feira, Obama manteve um rápido encontro com o secretário de Estado John Kerry para discutir aspectos específicos de uma proposta aos iranianos. Segundo um funcionário de alto escalão, Obama quis garantir que o Irã parasse com todos os testes num reator de água pesada, além de vincular toda referência ao enriquecimento de urânio do Irã apenas a um acordo final.

No entanto, buscar uma abertura diplomática mais ampla poderia alterar outros cálculos americanos na região - desde a Síria, onde o Hezbollah, apoiado pelo Irã, combate ao lado de Bashar Assad, até o Afeganistão, onde os iranianos poderiam ser úteis na intermediação de um acordo pós-guerra com o Taleban, disse Nasr.

A perspectiva desse realinhamento estratégico no longo prazo foi o que alarmou os aliados americanos, como a Arábia Saudita, os emirados do Golfo Pérsico e Israel, cujo primeiro-ministro, Binyamin Netanyahu, classificou, no domingo, o pacto como um "erro histórico".

Foi também essa perspectiva que provocou a oposição de congressistas, incluindo alguns do partido de Obama, que reclamaram do fato de o acordo abrandar as pressões sobre o Irã, sem extrair concessões suficientes. "Foram as sanções mais enérgicas, e não os corações bondosos dos líderes iranianos, que levaram o Irã à mesa de negociações", afirmou o senador Charles Schumer.

O democrata disse que apoiaria uma pressão no Senado para a aprovação de novas sanções contra a república islâmica depois do feriado do Dia de Ação de Graças. No sábado, Obama advertira que novas punições contribuiriam para "fazer fracassar esse primeiro passo promissor". Um dia depois, funcionários do governo chamaram congressistas para defender o acordo e encaminhar a legislação, enquanto Obama telefonou para Netanyahu.

Até certo ponto, o presidente americano encontra-se numa difícil situação, semelhante à de sua política em relação à Síria, em que aliados, como a Arábia Saudita, são mais favoráveis a um apoio aos rebeldes que combatem Assad.

"Agora, o governo será, de certo modo, refém do comportamento do Irã", disse Elliott Abrams, um expoente da política externa nos governos de Ronald Reagan e de George W. Bush. "O mau comportamento do Irã - seja da Guarda Revolucionária na Síria ou nos discursos dos aiatolás contra Israel - estará vinculado ao acordo."

Em Israel, o rancor poderá afetar outra prioridade de Obama: um acordo de paz entre israelenses e palestinos. "A questão palestina é a grande vítima do acordo", disse Bruce O. Riedel, bolsista da Brookings Institution. "Agora que eles têm um acordo com o Irã, com fortes objeções de Israel, será muito difícil convencer Netanyahu a fazer alguma coisa na questão palestina."

Obama se arriscou a irritar os aliados europeus, particularmente a França, autorizando as negociações secretas com o Irã, realizadas paralelamente às conversações multilaterais que envolviam Grã-Bretanha, China, França, Alemanha e Rússia.

Essas negociações, reveladas pela Associated Press, referiram-se a muitos dos princípios contidos no acordo provisório de Genebra. Obama foi informado sobre os seus avanços por Jake Sullivan, assessor de segurança nacional do vice-presidente Joe Biden, que conduziu as conversações com o vice-secretário de Estado, William J. Burns. Segundo os assessores, ao longo das negociações, o presidente tornou-se particularmente versado nos detalhes do programa nuclear iraniano.

Em um telefonema no sábado à tarde, com Kerry, que estava em Genebra, Obama escreveu a redação final, concentrando-se n o preâmbulo, que se refere a um "programa de enriquecimento mutuamente definido" com o Irã - essencialmente, a cláusula que permitirá que a república islâmica enriqueça urânio, privilégio que hoje não lhe é reconhecido pela ONU.

Entretanto, ao olhar para o futuro, não são os detalhes, mas o quadro geral que dominará a atenção de Obama. Entre as decisões com as quais ele se depara está a possibilidade de tratar o programa nuclear do Irã como um problema separado a ser resolvido como primeiro ato de uma abertura mais ambiciosa, que poderia dar ao Irã um papel na Síria, Afeganistão e outros lugares conturbados.

Assessores afirmam que Obama está aberto a isso. Considerando a sensibilidade suscitada pelo acordo provisório, a Casa Branca está sendo cuidadosa nos preparativos das próximas negociações.

"Antes de mais nada, foi um processo muito complexo e de muitos anos de duração", disse Tom Donilon, ex-assessor de segurança nacional de Obama. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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