Pacto com o diabo no Afeganistão

Acordo entre moradores e o Taleban permite a retomada de projetos e obras de infraestrutura no nordeste do país

MAIWAND SAFI, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2010 | 00h00

Em qualquer outra parte do mundo a cena seria rotineira: uma equipe de construção trabalhando duro numa estrada. Mas, aqui no Afeganistão, a visão de operários completando o trabalho numa autoestrada é considerada extraordinária. "Esta é uma ocasião muito feliz, alegro-me em ver os jovens trabalhando com tanto afinco", disse Mohammad Qais, motorista de caminhão que entrega suprimentos à equipe.

Mas não é ao governo central nem à ajuda estrangeira que Qais credita o projeto de desenvolvimento. Ele antes agradece ao Taleban por permitir que o trabalho prossiga. "Deus abençoe o Taleban por nos dar permissão para trabalhar nesta estrada. Senão, quem ousaria trabalhar aqui?", questiona.

Amirullah, um líder tribal do distrito de Tagab, também diz que os insurgentes são os responsáveis pelo sucesso do projeto. "A razão para não haver medo é que o Taleban autorizou a obra. Se eles a tivessem proibido, não se veria uma alma aqui agora", disse.

O motivo pelo qual o Taleban abandou sua oposição a projetos como esse é uma questão em aberto. Autoridades locais dizem que conseguiram pressionar o grupo a garantir a segurança do projeto. O próprio Taleban diz que permitiu a construção num gesto de boa vontade para com os habitantes locais. Seja qual for a razão, o projeto da estrada marca uma forte mudança na tática dos insurgentes.

No passado, a Província de Kapisa experimentou sua dose de ataques insurgentes a projetos relacionados com o governo ou seus aliados internacionais. A região foi tão dominada pelo Taleban que qualquer pessoa que trabalhasse em projetos de desenvolvimento ou fosse paga por uma organização humanitária internacional provavelmente seria intimidada, sequestrada ou morta.

Soltan Mohammad Sapai, chefe do governo distrital em Nejrab, disse que um jovem trabalhando num projeto de estrada no ano passado foi sequestrado por insurgentes. Seu corpo foi encontrado pendurado numa árvore, todo perfurado por balas. As coisas chegaram a um ponto crítico em agosto, quando o Taleban sequestrou dois membros de uma equipe de construção de estradas no distrito de Nejrab. Quando os insurgentes se recusaram a libertar os homens, moradores locais pegaram em armas e conseguiram sua libertação após uma breve batalha. Depois disso, líderes locais deram início a conversações com membros do Taleban para persuadi-los a permitir a execução de projetos que beneficiassem a comunidade.

Haji Mohammad Khan, um líder tribal, disse que essas negociações, conduzidas por delegações de pessoas influentes e por moradores em encontros pessoais com comandantes do Taleban, foram difíceis. "As discussões concentravam-se na construção de escolas, clínicas, pontes, canais, encanamento de esgoto e represas para o bem comum", disse. "Eles nos disseram que debateriam entre eles e nos informariam sua decisão. Depois disso, eles nos permitiram realizar projetos visando o bem-estar da população."

O governador em exercício da Província de Kapisa, Mohammad Sharif, disse estar satisfeito com o desfecho das conversações: o Taleban concordou em permitir o prosseguimento de projetos de obras públicas nos distritos de Alasay, Tagab e Nejrab, e mais projetos serão iniciados em breve.

"O Taleban percebe que esses projetos também beneficiam o grupo, por isso não interfere nos planos de bem-estar público. Engenheiros, operários e motoristas trabalham em paz de espírito e sem medo", disse.

Insurgentes admitem que passaram por uma mudança de opinião, mas insistem que ela foi resultado de uma decisão interna do grupo, e não uma concessão à fúria dos moradores locais. "O verdadeiro problema estava no fato de nos opormos a projetos que promovem o bem-estar público, o que fez com que alguns habitantes de Tagab se voltassem contra nós. O Taleban não quer a inimizade das pessoas", disse um comandante local que falou sob anonimato.

"O Taleban não se opõe às obras públicas, só atacou escolas, clínicas e outros serviços pela presença de soldados afegãos", disse. "Agora somos contrários apenas aos projetos associados ao Exército. Estes nós jamais permitiremos." / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK E AUGUSTO CALIL

É REPÓRTER NO AFEGANISTÃO E ESCREVE PARA O INSTITUTE FOR WAR AND PEACE REPORTING, ONG QUE TREINA JORNALISTAS PARA SITUAÇÕES DE CONFLITO

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