Pacto diminui violência em El Salvador

Um acordo entre o governo de El Salvador e as duas principais gangues locais reduziu drasticamente a criminalidade em um dos países mais violentos do mundo. Apesar de evidente, o governo nega ter negociado com criminosos, mas não consegue explicar por que o índice de homicídio caiu 65% em menos de um mês. Desde que denunciou o pacto, o jornal online El Faro vem recebendo ameaças.

CRISTIANO DIAS, O Estado de S.Paulo

27 Março 2012 | 07h42

Nos dias 8 e 9 de março, 30 dos criminosos mais perigosos de El Salvador foram transferidos para prisões comuns. O governo afirmou que autorizou a transferência porque tinha informações de que os presídios de segurança máxima seriam atacados. Além disso, justificou que, por razões humanitárias, muitos precisavam de tratamento médico adequado.

Subitamente, o número de homicídios caiu de 14 por dia para menos de 5. A brusca redução da violência, segundo versão oficial, seria resultado de um "eficiente trabalho policial" - admitir a negociação com traficantes pode ser um suicídio político em El Salvador.

Na semana seguinte, contudo, o Faro denunciou o óbvio: líderes da Mara Salvatrucha e da Rua 18 foram transferidos para prisões comuns em troca da trégua. "As justificativas do governo não fazem sentido", disse ao Estado Carlos Dada, diretor do jornal. "O risco de ataque é muito maior em prisões onde a segurança é menor. E se o problema é a saúde dos presos, por que enviá-los para cadeias onde o tratamento é mais precário?"

Logo após a denúncia, o general Mungía Payés, ministro da Segurança, convocou uma entrevista coletiva para alertar sobre os "riscos" que corriam os jornalistas, especialmente os do Faro, que poderiam "ter o mesmo destino" de Christian Poveda, jornalista assassinado em 2009.

De acordo com Dada, Payés reuniu-se com a direção do jornal, no dia seguinte, para dizer que tinha informações de que os jornalistas do Faro estavam na mira das gangues. "Quando o próprio ministro afirma que corremos perigo, e não faz nada, a quem devemos pedir proteção?", diz o diretor.

Igreja. A existência de um acordo foi confirmada na semana passada pelo bispo Fabio Colindres, capelão do Exército. Em entrevista, ele disse que a Igreja teria convencido os líderes das gangues, mas sem a participação do governo e nenhuma contrapartida. "Ficamos surpresos por eles terem compreendido a necessidade de um acordo", disse Colindres. "Eles perceberam que eram parte do problema, mas também eram a solução."

Para corroborar a versão da Igreja, os criminosos soltaram um comunicado contendo dez pontos, digitados em um computador, em que negavam a participação do governo e ameaçavam os jornalistas do Faro.

Dada, no entanto, não acredita no milagre da conversão dos criminosos. "Como pode um comunicado ser redigido na prisão, cuidadosamente digitado e divulgado sem a autorização do Estado?", questiona.

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