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Issa Goraieb
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Pacto histórico, erro brutal

Acordo histórico, como se felicitam os vários atores da maratona diplomática de Viena, ou erro colossal, como afirma o premiê israelense, Binyamin Netanyahu, e como pensam igualmente, sem o dizer com clareza, numerosos países árabes? São legítimas as preocupações do Estado judeu, como reconheceu o presidente americano, Barack Obama, ao salientar que o Irã seria muito mais perigoso se obtivesse a arma nuclear.

Issa Goraieb, O Estado de S. Paulo

19 de julho de 2015 | 03h00

No entanto, o presidente americano se absteve de lembrar publicamente as preocupações, não menos vivas, contudo, dos Estados árabes, a maioria dos quais aliada de Washington. 

Ao anúncio do acordo alcançado entre o grupo de cinco países do Conselho de Segurança da ONU (EUA, Rússia, China, Grã-Bretanha e França) mais a Alemanha (conhecido como P5 +1) e o Irã, esses países se contentaram em formular a esperança de que uma nova página seja aberta nas relações entre os povos do Oriente Próximo e Médio. 

Somente a Arábia Saudita, na primeira linha das monarquias petrolíferas do Golfo Pérsico, advertiu o Irã contra qualquer política “aventureira”, convidando-o a melhorar as condições de vida do próprio povo em vez de criar problemas como faz no Iraque, na Síria, no Iêmen e no Líbano. 

As preocupações sauditas se situam em mais de um nível. É fato que, por força das restrições impostas pelo acordo de Viena, o Irá não estará em condições de produzir uma bomba atômica.

No entanto, dez anos passam rápido e, ao contrário de Israel, que já possui um importante arsenal nuclear, os Estados árabes, mesmo os mais ricos, não têm nem sequer o cabedal científico que lhes permitiria se lançar na corrida, mesmo que se beneficiassem da cooperação de potências sunitas não árabes, como o Paquistão.

Na impossibilidade de entrar no clube das potências nucleares, o Irã se encontra (como Brasil, Alemanha e Japão) no limiar desse círculo muito seleto. A república islâmica foi reconhecida pelo P5+1 como uma potência regional que, segundo os termos de Obama, tem um papel a cumprir nesta parte do mundo.

É o caso, particularmente, de um eventual acordo político na Síria, onde Teerã sustenta maciçamente o regime de Bashar Assad e por cuja derrubada operam ferrenhamente os reinos do Golfo e a Turquia.

Também incontornável, aliás, é o papel do Irã nos outros focos de tensão da região onde se enfrentam com violência os dois principais ramos do Islã, sunitas e xiitas.

Tanto no Iraque como no Iêmen, Teerã arma e financia milícias xiitas. E por meio do Hezbollah, chegou a criar na fronteira sul do Líbano uma linha de contato geográfica e militar com Israel. Eis o que permite a Teerã posar de defensor da causa palestina e de arrebatar esse título das capitais árabes acusadas de laxismo e de traição.

Por enquanto, porém, é sobretudo a perspectiva de uma futura cooperação de segurança iraniano-americana para enfrentar o Estado Islâmico e outros grupos islamistas radicais que preocupa os dirigentes árabes.

Eles temem que semelhante cooperação, com o tempo, possa produzir, se não uma inversão de alianças, ao menos uma diversificação das amizades americanas, caso em que mais de um país árabe perderia sua condição de aliado preferencial. 

Em definitivo, a questão mais premente é saber qual uso os iranianos farão do fabuloso maná financeiro que o iminente levantamento das sanções internacionais vai lhe proporcionar.

Darão eles prioridade ao bem-estar de uma população que sofreu duras privações? Ou dobrarão, ou decuplicarão, o orçamento ligado à exportação da revolução? Longo e incerto é o itinerário traçado em Viena. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É JORNALISTA DO  'L'ORIENT-LE JOUR', DE BEIRUTE, E COLUNISTA DO 'ESTADO'


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