'Pacto reabilita Teerã e prejudica sauditas e Opep'

Para analista americano, EUA podem tirar proveito do impacto do acordo com os iranianos no mercado mundial de petróleo

Entrevista com

Ian Bremmer. diretor da consultoria Eurasia e colunista do Estado

LUIZ RAATZ, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2015 | 02h01

O acordo nuclear com o Irã, firmado na semana passada em Lausanne, na Suíça, contribuirá para enfraquecer a Arábia Saudita e a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), na queda de braço que envolve o controle do preço da commodity, e trará benefícios econômicos e geopolíticos para os Estados Unidos, que têm investido na exploração de gás de xisto.

A opinião é do diretor da consultoria Eurasia e colunista do Estado, Ian Bremmer, que adota um tom crítico sobre os sucessos e insucessos da política externa democrata nos últimos anos. "A reabilitação do Irã perante a comunidade internacional afetaria o preço do petróleo, enfraqueceria os sauditas e a Opep. E isso é bom para os EUA", diz ele. A seguir, trechos da entrevista.

Diplomatas negociaram em Lausanne, na Suíça, o acordo nuclear preliminar com o Irã. O que levou a esse avanço, impensável há alguns anos?

É uma vitória para a diplomacia multilateral dos EUA. Mesmo que não seja um acordo muito vantajoso, isso é importante: trabalhar com aliados para conseguir algo concreto. Trabalhar com os russos e com os chineses é bastante importante. Por exemplo: as relações americanas com Lavrov (o chanceler russo) são horríveis, mas ele está em Lausanne negociando. O acordo em si não é excelente. Os iranianos, provavelmente, manterão sua capacidade de enriquecimento e, se as sanções forem removidas, eles poderão retomar o processo em 12 a 18 meses se quiserem. Depois disso, provavelmente, as sanções não poderão ser reaplicadas. Então, não é um grande acordo.

O acordo é a maior vitória diplomática de Obama?

A maior vitória de Obama nesse campo seria concluir o acordo comercial na Ásia, porque 40% do PIB do mundo está lá. Isso pressionaria os chineses a alinharem-se aos Estados Unidos. Não sei se ocorrerá. Se não acontecer, aí sim o acordo com o Irã seria um grande feito, seguido da retomada das relações com Cuba, da abertura política em Mianmar e da morte de Osama bin Laden. Mas também houve muitos fracassos. Com certeza seria a maior vitória de John Kerry (secretário de Estado dos EUA), que perdeu 18 meses tentando um acordo entre israelenses e palestinos que nunca teve chance de ocorrer. Perder tanto tempo nisso foi um enorme erro de avaliação da parte dele (Kerry). Um acordo com o Irã salvaria um legado, mais para Kerry do que para Obama

E o Irã não é importante apenas pela questão nuclear. Há o Estado Islâmico e outras disputas no Oriente Médio.

O Irã, acima de tudo, é importante como produtor de petróleo. Sua reabilitação perante a comunidade internacional afetaria o preço do petróleo, enfraqueceria os sauditas e a Opep. E isso é bom para os EUA. Na luta contra o EI, o Irã certamente tem um papel preponderante. Além disso, o Irã tem uma economia interessante para investir, mais diversificada que as monarquias do Golfo no longo prazo. Muitas empresas americanas e europeias investiriam ali.

Houve uma mudança de foco no governo Obama, do Oriente Médio para a Ásia, correto?

Certamente o esforço de Hillary Clinton (ex-secretária de Estado dos EUA) e de outros no primeiro mandato era a Ásia. No longo prazo, os EUA reforçarão sua participação militar no Pacífico, principalmente sua capacidade naval. Alguns dos principais aliados dos EUA hoje estão na Ásia e temem o avanço chinês, mas também diria que, depois da saída de Hillary, isso perdeu força. Kerry não conhece a Ásia. Não há no governo gente de alto gabarito que conheça a Ásia. O EI também acabou tirando o foco da Ásia. No futuro, isso será retomado porque a China se tornará a maior economia do mundo e as oportunidades de negócio e as ameaças estarão lá.

Falando mais especificamente do EI, qual deveria ser a estratégia das potências ocidentais contra o grupo?

É muito difícil, porque os EUA querem mostrar que, não importa como, mas o EI será destruído. Ao mesmo tempo, porém, eles querem dizer aos seus aliados árabes que é um problema deles. Então, não importa como, não haverá envio de tropas. São posições contraditórias, mas as duas correspondem aos interesses americanos. A coalizão organizada no Iraque contra o EI foi bem sucedida, mas na Síria não há com quem trabalhar. Não querem lidar com os iranianos e dizem que Assad precisa cair. Eu também odeio o Assad, mas não há alternativas a ele. Vai demorar muito para combater o EI dessa maneira. Provavelmente, o dinheiro deles no Iraque acabará logo e os iraquianos não terão mais como governar. E o EI continuará a atrair mais militantes para manter sua 'Al-Qaeda 2.0', uma organização muito poderosa na região, na Europa e na Rússia.

Por que a situação nesses países que passaram pela Primavera Árabe se deteriorou tanto nos últimos dois anos?

Por muitos motivos. Falta de desenvolvimento econômico, queda no preço do petróleo, governos incompetentes, falta de educação para a população feminina, uma alta tolerância com o Islã radical por parte de clérigos locais, fronteiras mal feitas, que não refletem os anseios das seitas e etnias nesses países. A culpa certamente não é dos EUA. No Iraque, os EUA intervieram, reconstruíram o país e ele se desintegrou. Na Líbia, houve intervenção militar, sem reconstrução, e o país se desintegrou. No Iêmen, não houve nem intervenção, nem reconstrução e o país se desintegrou. O que os três têm em comum? Não é os EUA, certo?

Hoje, quem é o maior antagonista dos EUA? Rússia ou China?

Estrategicamente, a China. É a ameaça de longo prazo. Há uma ciberguerra entre os dois, competição no cenário mundial. Os chineses estão construindo uma arquitetura de um sistema internacional alternativo, com o Banco de Desenvolvimento Chinês, o Banco dos Brics, o Banco de Investimento em Infraestrutura da Ásia. Isso ameaça a ordem mundial liderada pelos EUA. Mas, no curto prazo, a ameaça à ordem geopolítica é a Rússia. Nem tanto para os EUA, mas para a Europa.

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