Reprodução/ Eddie Becker
Reprodução/ Eddie Becker

Padre disse ter feito um 'exorcismo' no Congresso americano, mas Igreja nega que ele seja exorcista

Entrevista de quase cinco minutos do padre gerou raiva entre alguns paroquianos e recebeu uma repreensão da Arquidiocese de Omaha, que está investigando suas ações em Washington no dia da invasão do Capitólio

Andrea Salcedo / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

05 de fevereiro de 2021 | 07h00

O padre católico, vestido com seu colarinho clerical, caminhava por entre uma multidão de apoiadores de Donald Trump do lado de fora do Capitólio em 6 de janeiro e segurava um livro sobre exorcismos quando um cinegrafista se aproximou. “Você fez um exorcismo no Capitólio?” o cinegrafista perguntou. “Sim, eu fiz”, respondeu o padre, antes de sugerir que um “demônio” havia tomado conta do Congresso.

A entrevista de quase cinco minutos do padre, que desde então foi identificado como o Reverendo David Fulton, de Central City, Nebraska, gerou raiva entre alguns paroquianos e recebeu uma repreensão da Arquidiocese de Omaha, que está investigando suas ações em Washington naquele dia, relatou o jornal Omaha World-Herald.

Fulton, que não respondeu imediatamente ao pedido de comentário do Washington Post, leu um pedido de desculpas na Igreja Católica de St. Michael, mas também argumentou que o cinegrafista era “anticatólico” e interpretou seus comentários fora do contexto. Fulton disse aos oficiais da igreja que ele não realizou um exorcismo, mas, ao invés disso, “conduziu outros em oração”, e negou ter entrado no Capitólio durante a violenta insurreição, que terminou com cinco mortos.

De qualquer forma, disseram oficiais da Igreja, Fulton errou ao aparecer na manifestação com seu colarinho alegando ter feito um exorcismo. “Ele não deveria estar lá vestido de padre. Foi um mau uso de seu ministério sacerdotal”, disse Timothy McNeil, chanceler da Arquidiocese de Omaha, ao World-Herald, relatando os comentários do arcebispo de Omaha, George Lucas.

Fulton atua como pastor em St. Michael’s e St. Peter’s, duas paróquias no centro rural de Nebraska. O padre, que foi ordenado em 2002, teve um relacionamento turbulento com a congregação de St. Michael’s. Em 2019, um grupo de agora ex-paroquianos escreveu uma carta ao arcebispo questionando sua liderança e levantando outras preocupações sobre seu trabalho, de acordo com o World-Herald.

Em 6 de janeiro, o cinegrafista independente Eddie Becker, que mora em Washington, caminhava perto do lado oeste do Capitólio quando, por volta das 15h25, avistou Fulton caminhando na direção oposta, disse Becker em entrevista ao Post. Becker, de 70 anos, entrevistou dezenas de participantes ao longo do dia para um “documentário instantâneo” que estava produzindo. Ele disse que estava curioso para saber o que Fulton estava fazendo porque não tinha visto muitos líderes religiosos no comício.

“Como foi para você lá?”, Becker perguntou a Fulton quando ele se aproximou. “Bastante incrível... Não cheguei lá, mas a multidão era incrível, a atmosfera. É bom ver tantas pessoas que se preocupam com o país. Pessoas que sabem o que está acontecendo, o óbvio roubo”, disse Fulton, referindo-se às alegações infundadas do ex-presidente Donald Trump de fraude eleitoral generalizada.

Depois que Fulton afirmou ter realizado um exorcismo, Becker perguntou a ele: “O que possuiu o Capitólio?”. Fulton disse que o prédio havia sido tomado por um “demônio chamado Baphomet” com a intenção de “dissolver o país”. Dias depois, Becker publicou um vídeo de quase 10 minutos de entrevistas com pessoas no comício, incluindo clipes de sua conversa com Fulton.

A Arquidiocese de Omaha soube pela primeira vez que Fulton havia viajado a Washington para o protesto de 6 de janeiro depois de ele retornar a Nebraska, quando alguém o denunciou à igreja, disse McNeil ao World-Herald.

Fulton disse aos oficiais da Igreja que deixou o Capitólio antes que qualquer violência acontecesse e não soube dos distúrbios até retornar ao hotel, disse McNeil.

Pedido de desculpa

Fulton, que segundo McNeil não é exorcista, negou ter feito um exorcismo. Desde que ele viajou para Washington como um cidadão privado, Fulton não violou nenhuma “lei civil ou eclesiástica”, disse McNeil, mas ele “abusou” de sua posição ao usar seu colarinho clerical. “Quer o padre Fulton tenha ou não infringido qualquer lei, condeno sua participação no evento nos termos mais fortes”, disse McNeil ao jornal.

Fulton quebrou o silêncio sobre o vídeo na missa no domingo, 31, quando leu um pedido de desculpas que disse que o arcebispo de Omaha havia lhe pedido para fazer. Fulton disse que “usou de mau julgamento” ao comparecer ao protesto e “falou e agiu de uma forma que não condizia com a minha vocação de padre”.

Mas ele também criticou Becker por supostamente “transformar em arma” seus comentários ao postar apenas uma parte da entrevista online. “Esse cara queria me entrevistar e pude perceber que ele não era... de boas intenções”, disse Fulton. “Mas pensei que talvez pudesse levá-lo a algo que pudesse ajudar a evangelizá-lo. E então tentei encontrar semelhanças com o que ele estava dizendo – ele estava dizendo coisas muito anticatólicas.”

Depois do sermão, Becker respondeu publicando o vídeo completo de sua entrevista com o padre para que as pessoas pudessem “tirar suas próprias conclusões”, disse ele ao Post. “Olhe a fita. Ele basicamente se compromete”, disse. “Não ouvi mais falar dele e nem acho que vou mais.”

McNeil disse inicialmente ao World-Herald que Fulton não enfrentaria as consequências oficiais por comparecer ao protesto ou alegar ter realizado um exorcismo. Mas, na segunda-feira, 1º, ele disse que uma investigação interna estava em andamento. “Este é um assunto interno de pessoal que estamos levando a sério”, disse McNeil ao World-Herald.

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