Padre e moradores se atam a cruzes em Jujuy

Por volta do meio dia desta quarta-feira, o monsenhor Jesús Olmedo atou-se a uma cruz na praça central da cidade de La Quiaca, na fronteira da província argentina de Jujuy com a Bolívia. Outras 30 cruzes foram destinadas aos moradores locais, em uma modalidade de protesto fora de sintonia com os panelaços da classe média de Buenos Aires. Em La Quiaca, a palavra de ordem não era a liberação dos depósitos presos no chamado curralzinho. A intenção era chamar a atenção das autoridades para a penúria vivida por seus habitantes. Aqui, o desemprego alcança 60% dos trabalhadores, e a desnutrição afeta 50% das crianças. Não há leite nem remédios. Falta tudo, afirmou monsenhor Olmedo. ?Calculamos que mais de 150 pessoas vão amarrar-se a cruzes. A crucificação é simbólica e real. A cruz de todos os dias é a fome, a injustiça, a dor?, afirmou. A forma de protesto de La Quiaca não foi repetida no país. A Argentina, nesta quarta-feira, tampouco assistiu a novas ondas de violência, como as que explodiram nesta terça-feira em três províncias, uma delas, na capital de Jujuy, a 300 quilômetros de La Quiaca. Mas houve pelo menos seis protestos contra situações que, diretamente, nada têm a ver com a liberação dos depósitos congelados nos bancos ou com o desenho da política econômica que seguirá o país. Nas manifestações, a motivação ia do atraso do pagamento de salários à reforma política provincial - em um sinal de que há mais demandas represadas na sociedade civil argentina, a ponto de explodir, que aquelas apontadas pelo governo. Em Tucuman, representantes de partidos políticos e de entidades sindicais pediram justamente a reforma política, diante da sede do governo provincial. Em Salta, o protesto foi contra os gastos reservados autorizados pelo legislativo local ao governador, Juan Carlos Romero, de 20 mil pesos por dia. Trabalhadores do Instituto Provincial da Saúde queriam receber os salários, que não são pagos desde agosto. No Aeroporto Internacional de Buenos Aires, funcionários da companhia aérea ARG cobriram os rostos com máscaras para protestar contra a redução de salários e a suspensão de colegas do trabalho. Com o emprego em queda, taxistas de Córdoba e da Grande Buenos Aires pediam a proibição da atividade de motoristas autônomos. Esses protestos se somaram ao bater das panelas pela classe média contra o curralzinho - a bomba-relógio nas mãos do governo, conforme o próprio presidente, Eduardo Duhalde, por conta de seu potencial de "incendiar" a classe média argentina. Na tarde desta quarta-feira, um panelaço atrapalhou o trânsito na Calle Reconquista, onde está a sede do Banco Central. No bairro de Liniers, também em Buenos Aires, comerciantes fecharam a região onde estão situados sete bancos estrangeiros, em um protesto batizado como curralzinho humano. Pediam a liberação dos depósitos em operações de prazo fixo. Os panelaços contra os bancos foram repetidos em Santa Fé e em Tucuman, mas todos seguiram pacificamente. Leia o especial

Agencia Estado,

16 Janeiro 2002 | 20h45

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.