Andrew Rush/Post-Gazette via AP
Andrew Rush/Post-Gazette via AP

Padres abusaram de mais de mil crianças na Pensilvânia, revela investigação

A Justiça americana encontrou evidências confiáveis contra mais de 300 padres, que foram encobertos pela Igreja

O Estado de S.Paulo

14 Agosto 2018 | 18h18

NOVA YORK - Bispos e outros líderes da Igreja Católica na Pensilvânia ocultaram abusos sexuais de mais de mil crianças por aproximadamente 300 padres durante 70 anos, persuadindo as vítimas a não denunciar os abusos e policiais a não investigá-los, informou um relatório divulgado nesta terça-feira por um grande júri. O texto, segundo o qual foram identificadas mais de mil vítimas, cobriu seis das oito dioceses do Estado. 

Trata-se da maior apuração já feita por uma agência governamental dos Estados Unidos sobre abusos sexuais envolvendo a Igreja Católica. Já houve dez relatórios de grandes júris e promotores nos EUA sobre o assunto, segundo o grupo de pesquisa e advocacia BishopAccountability.org, mas esses foram sobre investigações em dioceses isoladas ou condados. 

“Para muitas vítimas, esse relatório faz justiça”, disse o procurador-geral da Pensilvânia, Josh Shapiro. Ele indicou que a investigação, que durou 18 meses, revelou um “acobertamento sistemático” dos abusos por parte de funcionários eclesiásticos na Pensilvânia e no Vaticano.

O relatório cita casos terríveis de abuso, como o de um padre que violentou uma garota hospitalizada após a extração das amídalas, e de outro religioso que continuou no sacerdócio após engravidar uma garota de 17 anos, forjar uma assinatura numa certidão de casamento e em seguida providenciar o divórcio da jovem. 

A maioria das vítimas era de meninos e muitos estavam na pré-puberdade, segundo o relatório, que aponta que alguns foram manipulados com álcool e pornografia. Outros foram tocados e violentados.

“Apesar de algumas reformas institucionais, muitos líderes da Igreja escaparam de prestar contas ao público”, diz o relatório. “Padres estupraram meninos e meninas e os homens de Deus responsáveis por eles não apenas nada fizeram, mas ocultaram os crimes. Por décadas.”

“Acreditamos que o número real (de menores abusados, até mesmo aqueles cujos dossiês se perderam ou que nunca denunciaram por medo) está nos milhares”, destaca o relatório.

O grande júri acrescentou que os membros da Igreja citados em seu relatório foram protegidos e alguns até promovidos. “Enquanto isso não mudar, acreditamos que seja muito cedo para fechar o livro sobre o escândalo sexual envolvendo a Igreja Católica”, conclui o documento. 

Poucas ou nenhuma das evidências levantadas levará possivelmente a processos criminais, diz o estudo de 1.400 páginas. “Como consequência do acobertamento, quase todos os abusos cometidos são muito antigos para levar a processos”, acrescentou o estudo.

O Legislativo do Estado da Pensilvânia até agora resiste a apelos para levantar o estatuto que impede vítimas de abusos na infância de apresentar queixa após terem completado 30 anos. Antigas vítimas e advogados informaram que em setembro pretendem dar início a uma nova campanha para pressionar parlamentares a interromper sua oposição à modificação da lei.

As dioceses de Allentown, Greensburg, Pittsburg e Scranton prometeram que, após a divulgação oficial do relatório, vão liberar os nomes de todos os padres dessas dioceses que foram acusados de abusar sexualmente de menores. As dioceses de Erie e Harrisburg já postaram listas de acusados em seus sites. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ  / NYT, W.POST e AFP

 

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