Jewel Samad/AFP
Jewel Samad/AFP

Padres usaram fé católica como arma para abuso, diz promotor

Sacerdotes da Pensilvânia recorriam a crucifixos, água benta e ameaças de condenação eterna para abusar sexualmente de crianças

O Estado de S.Paulo

16 Agosto 2018 | 10h23

HARRISBURG, PENSILVÂNIA - Padres católicos da Pensilvânia usaram rituais religiosos, símbolos da fé e a ameaça da eternidade no inferno para tocar, molestar e estuprar crianças, segundo o relatório do júri apresentado na terça-feira, nos Estados Unidos. 

Para o principal promotor do Estado, tais atos correspondem ao "uso da fé como arma". O documento de 884 páginas sobre a investigação em todo o Estado detalhou como "padres predadores" usaram a crença religiosa das crianças e sua confiança em seus líderes católicos para vitimizá-las e silenciá-las.

Em um dos casos, um padre amarrou a vítima com uma corda dentro do confessionário da igreja em "posição de oração", relatou o júri. Quando a vítima se recusou a fazer sexo, o padre irritado usou um crucifixo de 17 centímetros para estuprá-la, segundo o relatório. Outra vítima contou como um padre utilizou uma cruz de metal para espancá-lo.

Em outro caso, segundo o relatório do júri, quatro sacerdotes obrigaram um menino a tirar suas roupas e posar como Jesus na cruz, enquanto tiravam fotos. O crime aconteceu dentro de uma paróquia. "Ele (a vítima) afirmou que todos riram e afirmaram que as imagens seriam utilizadas como referência para novas estátuas para as paróquias", relatou o documento. Dois desses sacerdotes foram condenados por agredir sexualmente dois coroinhas.

Há também o relato de um padre que disse a um menino molestado por ele que estava tudo bem, porque a criança era "um instrumento de Deus". Sacerdotes também utilizaram a confissão como oportunidade para abusar das crianças, afirma o relatório.

A investigação de seis das oito dioceses da Pensilvânia - Allentown, Erie, Greensburg, Harrisburg, Pittsburgh e Scranton - é a mais extensa investigação sobre o abuso do clero católico em qualquer Estado americano, segundo dizem os defensores das vítimas. Mais de mil crianças - e possivelmente muitas mais que nunca relataram o ocorrido - foram molestadas desde a década de 1940, de acordo com o documento. As dioceses investigadas representam cerca de 1,7 milhão de católicos.

A Arquidiocese da Filadélfia e a Diocese de Johnstown-Altoona não foram incluídas na investigação porque foram objeto de três investigações contundentes anteriormente. Líderes de dioceses expressaram, na terça-feira, pesar pelas vítimas e revelaram, pela primeira vez, uma lista de padres acusados de algum tipo de má conduta sexual.

"Predadores em todas as dioceses usaram a fé Católica como arma e como ferramenta de abuso", disse o procurador-geral Josh Shapiro, quando o relatório foi divulgado, documentando as alegações contra 301 padres ao longo de sete décadas. Apenas 2 dos 301 padres foram acusados de crimes como resultado da investigação, embora outros tenham sido processados anteriormente. Além disso, mais de 100 já morreram e muitos outros estão aposentados.

Líderes da Igreja dizem que a maioria dos crimes aconteceu no passado e observaram que grandes mudanças foram adotadas a partir de 2002 para proteger as crianças.

Terence McKiernan, presidente do grupo de vigilância BishopAccountability.org, disse que a ritualização do abuso era parte fundamental do modo como as crianças eram sexualmente exploradas. "Mesmo quando os rituais e doutrinas católicos não são especificamente utilizados pelo padre, eles ainda estão em jogo", explicou. As ameaças de condenação eterna, por exemplo, eram comuns, conforme o júri descobriu.

Padres disseram às crianças que elas iriam para o inferno se contassem a alguém o que aconteceu e que "ninguém acreditaria em uma criança mentirosa e não na palavra de um homem de Deus". Um padre foi citado, dizendo que coroinhas deveriam servir nus sob as batinas, porque "Deus não queria que nenhuma roupa feita pelo homem fosse usada perto de sua pele durante a missa", disse o documento.

Em um dos casos, quando um menino confessou a um padre que fora estuprado aos 7 anos, o sacerdote respondeu que a criança teve que fornecer sexo para chegar ao céu. O menino foi molestado durante três anos antes de o padre ser transferido. Um dos casos que ganhou destaque no dia em que o relatório foi divulgado foi o de um menino de 7 anos. Ele foi estuprado oralmente por um padre, que depois lavou sua boca com água benta.

Os padres predadores usavam qualquer oportunidade que pudessem para molestar as crianças quando estavam sozinhas, concluiu a investigação. Além disso, vários sacerdotes utilizavam a hipnose durante sessões de aconselhamento para manipular as vítimas. Ajudar um padre a organizar avaliações no escritório da reitoria se tornava uma sessão de levantamento de peso nu. Em um caso, um menino foi abusado quando foi recolher seu boletim da escola.

Quando um bispo pediu ao Vaticano para remover um padre que havia utilizado força física e ameaças para abusar de crianças, o bispo observou que o padre havia "invocado o nome de Deus para justificar suas ações contra as vítimas, enquanto usava sua fé e o sacerdócio para as manipular e garantir seu silêncio". Os paroquianos nunca foram informados do motivo pelo qual o padre foi removido, em 2006.

O júri ressaltou que a investigação não foi um ataque à fé, já que muitos dos integrantes do grupo são católicos. "Pessoas de todas as religiões ou sem religião querem que suas crianças estejam seguras", disseram os jurados. "Mas nos foi apresentada uma concentração notável de casos de abuso sexual contra crianças que vieram da Igreja." / AP

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