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Gilles Lapouge
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Página de história de horror

Um avião da companhia Germanwings, um Airbus 320, precipitou-se nos Alpes Franceses na terça-feira. Cento e cinquenta mortos. Trágico, como é trágico todo acidente de avião. Mas, ontem pela manhã, o quadro se modificou bruscamente: a queda da aeronave não se deu por acidente. Foi um ato voluntário.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

27 Março 2015 | 02h02

Foi uma das duas caixas-pretas que provocou esta reviravolta. Ela falou e o que disse é alucinante. Tudo ocorreu nos últimos minutos do voo: o piloto saiu da cabine para ir ao banheiro. Quando quis entrar novamente, a porta estava trancada por dentro. E o avião começou um mergulho de milhares de metros. O piloto pediu para abrir a porta, mas não obteve resposta. Aparentemente, quis arrombá-la. Sem sucesso.

O copiloto estava mudo. Ele era o único que poderia ter feito uma manobra para este mergulho vertiginoso. Ele não falou, Não respondeu às perguntas dos controladores de voo, desesperados com o que estava acontecendo. Nas faixas da caixa-preta ouviu-se respirar durante toda a descida fatal: uma respiração calma. O avião se precipitou para o solo. Foi o fim.

O promotor público de Marselha divulgou estas informações no final da manhã. Ele apresentou uma conclusão: o piloto queria destruir o avião.

E manobrou para isso. A tese do acidente deve ser abandonada. Só restam duas soluções: ou o piloto se suicidou, ou praticou um ato terrorista.

Por hora, é impossível estabelecer qual das duas hipóteses é a verdadeira.

Todos os olhares se voltam então para o copiloto. É um jovem alemão de 28 anos, piloto desde 2013. Os alemães são bombardeados de perguntas. O que se sabe a respeito deste copiloto? Nada. Enfim, o comum: um apaixonado pela aviação, Um bom companheiro. Calmo. Nem um pouco exaltado.

A polícia alemã assegura que jamais se suspeitou que ele nutrisse alguma simpatia pela jihad. Pessoas próximas ao copiloto acabaram de chegar a Marselha e ao local do desastre, nos Alpes. Talvez seus testemunhos ajudem a esclarecer o homem.

A jihad? Mas se este jovem simpatizasse pelo islamismo radical, como poderia deixar de despertar suspeitas? Então, um suicida? Mas se suicidar provocando a morte de 150 pessoas? Esta conduta nos leva ao coração do horror, ao coração do impensável.

Assim, um acontecimento trágico, mas explicável (um acidente de avião), metamorfoseou-se sob nossos olhos e, de repente, ganhou destaque graças aos ruídos da caixa-preta, um dos grandes mistérios do nosso tempo.

Ao pavor que experimentamos diante deste drama, acrescenta-se o local do acidente. Minha família é originária dos Alpes Franceses, perto de Digne. Conheço bem esta região porque nasci em Digne e costumo passar ali parte das minhas férias. Estas são montanha rudes, austeras, negras.

Os lugares são magníficos e às vezes assustadores. Falésias, relevos violentos. Solidão. Florestas. Homens duros, corajosos, pouco falantes.

Vento, tempestades. Esta é uma das regiões da França onde perambulam os lobos. Nas montanhas próximas vagueiam duas matilhas de lobos: todos os elementos reunidos para tornar o que de início foi considerado um acidente técnico, a página rasgada de uma história de horror. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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