Pai de suposto cérebro de ataques diz que filho é inocente

Polícia suspeita de célula terrorista de estrangeiros infiltrada no Serviço de Saúde

Agencia Estado

03 Julho 2007 | 15h27

O pai do médico Mohammed Asha, de 26 anos, que alguns consideram o suposto cérebro da rede terrorista responsável pelos atentados fracassados do fim de semana no Reino Unido, se disse convencido da inocência de seu filho, em declarações ao jornal britânico The Times."Meu filho é incapaz de algo assim. Nem todos os árabes são terroristas", explicou Jamil Asha.O pai do acusado, que vive na Jordânia e ouviu a notícia da detenção de seu filho, disse ao correspondente do jornal em Amã que no dia 12 de julho o jovem médico deveria retornar a seu país para passar as férias ao lado da mulher e do filho.Ele reconheceu que seu filho é um "muçulmano devoto", Masinsistiu que Mohammed Asha não pertence a nenhum grupo islâmico e que seu único objetivo era se tornar um médico excelente.O pai do suposto terrorista apelou inclusive ao rei Abdullah da Jordânia para intervir a favor de Mohammed.Ahmad Asha, irmão mais velho do detido, casado com uma cristã ucraniana e que vive na Jordânia, declarou ao Times que confiava em que Mohammed fosse declarado inocente porque ele tem "uma mente científica" e não estava interessado na militância islâmica.Fontes dos serviços de inteligência britânicos disseram ao jornal que Asha não tinha nenhum antecedente criminal. "Só sabemos que ele é médico. Estamos à espera das informações do interrogatório no Reino Unido", disseram as fontes.Conspiração médicaNo Reino Unido já se fala de uma conspiração dos médicos, já que seis dos oito detidos nas investigações sobre os atentados frustrados do fim de semana em Londres e Glasgow são médicos ou estudantes de Medicina, ou têm alguma relação com o Serviço Nacional de Saúde, segundo a imprensa britânica.Ao contrário dos terroristas suicidas que há dois anos, em 7 de julho de 2005, causaram uma carnificina ao atentar contra a rede de transportes londrina, desta vez nenhum dos suspeitos identificados até agora tem passaporte britânico.A polícia suspeita de uma célula terrorista de militantesestrangeiros. Quase todos seriam de países do Oriente Médio, como Iraque e Jordânia. Ligados à Al-Qaeda, eles utilizam seus empregos nos hospitais britânicos como fachada, para não chamar a atenção dos serviços de inteligência, segundo a investigação.Um dos detidos é Mohammed Asha, de 26 anos, qualificado como um brilhante neurocirurgião. Acredita-se que ele seja o cérebro do grupo.Palestino nascido na Arábia Saudita e com passaporte jordaniano, Asha se graduou em 2004 e trabalha como neurologista na Universidade de North Staffordshire, em Stoke-on-Trent. Asha foi detido com sua mulher, Marwah, de 27 anos, que trabalha como assistente médica para o Serviço Nacional de Saúde.Bilal Talal Adam Abdulla, que estudou Medicina em Bagdá e vive no Reino Unido desde abril do ano passado, também está sob custódia policial. Ele é um dos dois homens que no sábado tentaram lançar um automóvel em chamas contra o terminal de passageiros do aeroporto de Glasgow.Abdulla trabalha no hospital Royal Alexandra, de Paisley,localidade próxima à cidade escocesa. No mesmo local foi internado, com queimaduras gravíssimas, o motorista do veículo, que aparentemente também trabalha no Royal Alexandra.Dois colegas deles, de 25 e 28 anos, são aparentemente médicos em formação, de origem saudita. Outro médico, um indiano de Bangalore, foi detido em Liverpool. Ele trabalha no hospital de Halton, no condado de Cheshire.O indiano aparentemente foi detido, segundo disse um de seus colegas ao jornal Muslim News, por utilizar o telefone celular e a conta de internet de outra pessoa, que abandonou recentemente o Reino Unido.Na Austrália, mais um médico, o indiano Mohammed Haneef, foi detido. Ele tem 27 anos e está aparentemente vinculado com os detidos no Reino Unido. O suspeito, considerado, segundo as autoridades, um "excelente"cidadão e um bom funcionário, foi detido quando tentava pegar um vôo só de ida em direção à Índia, no aeroporto de Brisbane.A imprensa britânica afirma que a existência de uma possível rede estrangeira infiltrada no Serviço Nacional de Saúde é especialmente preocupante para as autoridades.Até agora, os terroristas ou suspeitos detidos no Reino Unido eram em sua maioria britânicos, nascidos e criados no país, embora suas famílias fossem de origem asiática. A chegada de estrangeiros, supostamente vinculados à Al-Qaeda, acrescenta uma nova e ainda mais preocupante dimensão à luta antiterrorista.Segundo os analistas, o Iraque se transformou num berço de terroristas, que aprendem as táticas mais mortíferas e não hesitarão em utilizar as mesmas estratégias em outros lugares se tiverem a oportunidade.Cérebro de operaçõesNada na biografia de Mohammed Asha dá alguma pista sobre sua suposta dedicação ao terrorismo. Seria o primeiro muçulmano com uma boa educação a se radicalizar após chegar a um país ocidental, destaca o Times.Mohammed Asha tem cinco irmãos e duas irmãs. Três deles também são médicos, e um é engenheiro. A família viveu algum tempo na Arábia Saudita, onde o pai ensinava árabe. Em 1991, todos retornaram a Amã, onde viviam num bloco deapartamentos muito deteriorado, mas de propriedade de diferentes membros da família, no humilde bairro de Jabal Zuhour.Segundo o perfil traçado pelo Times, Asha se destacou como estudante, ganhou uma bolsa de estudos para crianças superdotadas e ficou em terceiro lugar em todo o país entre os estudantes de ciência de ensino médio.Em 2004, formou-se em medicina pela Universidade da Jordânia. A sua alta nota valeu uma vaga na Universidade de Birmingham (Inglaterra), onde se especializou em neurologia.Asha chegou ao Reino Unido em março de 2005. Segundo fontes do Serviço Nacional de Saúde, passou um ano trabalhando no Royal Sherwsbury Hospital e no Princess Royal Hospital, da localidade de Telford. Depois passou ao University Hospital de North Staffordshire, em Stoke-on-Tent, no noroeste da Inglaterra, onde está empregado atualmente.O médico alugou uma casa em Sunningdale Grove, na localidade de Newcastle-under-Lyme, onde vivia com sua mulher, a jordaniana Marwah, de 27 anos, que conheceu ainda criança e com quem se casou na Universidade. Marwah tem formação como pesquisadora de laboratório, mas não trabalha no Reino Unido.O casal foi detido no sábado pela Polícia quando, em companhia de seu filho de menos de 2 anos, viajava por uma estrada do condado de Cheshire, também no noroeste da Inglaterra.

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