País abriu caminho para diálogo com Israel

Camp David atraiu os EUA, mas isolou o Cairo dos outros países árabes

Gustavo Chacra, CAIRO, O Estadao de S.Paulo

28 de março de 2009 | 00h00

Sob o comando de Gamal Abdel Nasser, o Egito liderou os países árabes nas primeiras décadas depois do fim do mandato de países europeus no Oriente Médio. Disputou duas guerras. Na primeira, em Suez, em 1956, graças à intervenção dos EUA, atingiu o objetivo de controlar o canal. Na Guerra dos Seis Dias, 11 anos mais tarde, foi humilhado na vitória arrasadora de Israel. Nasser perdeu a Península do Sinai e se enfraqueceu.Seu sucessor, Anuar Sadat, alteraria o rumo da política externa ao assinar, há exatos 30 anos, os Acordos de Camp David, que estabeleceram a paz entre egípcios e israelenses. Com o tratado, Sadat conseguiu, por um lado, retomar o controle do Sinai. Mas, ao mesmo tempo, foi isolado pelos países árabes, que não toleraram a atitude de abandonar a causa palestina, e passou a ser visto como um traidor. Hoje, historiadores veem muitos pontos positivos para o Egito no acordo. Abdel-Moneim Said, diretor do centro de estudos Al-Ahram, do Cairo, citou três deles em recente artigo. Sadat conseguiu o retorno de um território que equivale a 90% do que Israel havia ocupado; melhorou a economia do Egito; e abriu o caminho para que a Jordânia assinasse um acordo de paz. Com isso, os palestinos deram início às negociações de Oslo e foi lançado o diálogo entre sírios e israelenses, que, no fim, fracassou.Hosni Mubarak, no entanto, ao assumir o poder, sabia que estava isolado do mundo árabe. As mudanças descritas por Said apenas ganharam peso ao longo do tempo. A favor, o presidente egípcio tinha o apoio financeiro dos americanos e o aumento de seu território. Mas os dez primeiros anos de seu governo visaram à inclusão do Egito novamente na Liga Árabe, colocando o país árabe mais populoso de volta na liderança da região. Por ter boas relações com os EUA e Israel, os egípcios serviram muitas vezes de intermediários em negociações.O peso do Egito começou a se reduzir depois do 11 de Setembro. Ao mesmo tempo em que derrubava Saddam Hussein, no Iraque, os americanos pressionavam por democratização no restante do mundo árabe. Mubarak sabia que era um dos alvos. Realizou eleições presidenciais em 2005, na qual venceu com folga graças à repressão e fraude. Mas aceitou candidatos opositores. O mesmo se passou na disputa parlamentar. Nos últimos anos do governo George W. Bush, o pêndulo voltou a favorecer o Cairo. O fracasso em Bagdá e a vitória do Hamas nas eleições palestinas de 2006 levaram os americanos a reavaliar a pressão pelo processo de democratização. Concluiu-se que era melhor garantir a segurança de um Mubarak do que, aos olhos dos EUA, enfrentar a emergência de um grupo radical como a Irmandade Muçulmana.Mais recentemente, Mubarak foi criticado pela atuação do Egito na recente ofensiva de Israel em Gaza. Seu governo é acusado no mundo árabe de não ter feito nada para ajudar os palestinos e até mesmo de ter contribuído com os israelenses. O fechamento da Faixa de Gaza teria sido por pressão dos israelenses, diziam os críticos do Egito, na época. Na verdade, explicam analistas, Mubarak não permitiu que as fronteiras fossem abertas por disputas com Israel. No Cairo, há a crença de que Israel quer que o Egito se responsabilize pelos palestinos de Gaza. Os israelenses, dizem analistas, querem que o território se torne um problema egípcio. "Mas o Egito quer que Gaza como um problema de Israel, não deles", diz Hani Sabra, da consultoria Eurásia.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.