GARI GARAIALDE / AFP
GARI GARAIALDE / AFP

País Basco simpatiza com Catalunha, mas quer preservar sua paz

Na região, onde os separatistas são cerca de 30% dos 2 milhões de habitantes, mesmo aqueles que preferem a unidade espanhola defendem mais autonomia e o 'direito de decidir' sobre a autodeterminação

O Estado de S.Paulo

28 Setembro 2017 | 14h52
Atualizado 28 Setembro 2017 | 15h11

BILBAO, ESPANHA - "Deixem os catalães votar!". Essa é uma das frases mais repetidas nas ruas das grandes cidades independentistas do País Basco e, normalmente, vem acompanhada de um suspiro de reprovação em relação ao governo de Madri.

Milhares de estudantes vão às ruas da Catalunha para defender plebiscito

"Não sou defensor da independência, mas no momento não há democracia. Eu gostaria que o plebiscito fosse realizado em ambas as regiões (País Basco e Catalunha), mas de forma legal, em acordo com toda a Espanha. E votaria no "não", explica Candi Cordero, de 65 anos, caminhoneiro aposentado que caminhava pelas ruas de Bilbao, capital econômica da pátrica basca.

Em Hernani, uma região independentista cerca de 100 km ao norte, bandeiras da Catalunha são exibidas em prédios públicos e em várias ruas da cidade possível ver retratos de membros do ETA que morreram lutando pela independência da região.

"O governo é patético e acredita que tudo se resolve com repressão. Para a Espanha de 50 anos atrás", diz Arantxa Beobide, uma designer gráfico de 48 anos, se referindo ao período da ditadura de Francisco Franco (1939-1975), enquanto bebe uma cerveja em um bar da cidade onde todos os frequentadores ostentam sua simpatia pela esquerda separatista basca.

O prefeito de Hernani, Luis Intxauspe, assim como mais de uma centena de membros da coalizão separatista EH Bildu, irá à Catalunha no domingo para "observar" a consulta, proibida pela justiça espanhola.

Arnaldo Otegi, ex-membro do ETA e líder do movimento Sortu, esteve no dia 11 deste mês em Barcelona em razão da Diada, o dia da Catalunha. Dias depois, participou de uma marcha em Bilbao em favor do "direito de decidir".

A manifestação foi convocada pela plataforma Gure Esku Dago, que defende o direito dos bascos decidirem sobre a autodeterminação. 

O protesto reuniu milhares de pessoas, mas "não mais do que de costume" nesta região de 2 milhões de habitantes, na qual as marchas pela independência são comuns, avalia Rafael Leonisio, cientista político membro do Euskobarómetro, que mede o estado de ânimo da opinião pública basca.

Em um momento em que o ETA abandonou a luta armada depois de quatro décadas de violência e parece se encaminhar para sua dissolução, a proporção de bascos favoráveis à independência caiu recentemente para 30%, segundo o especialista, ficando abaixo dos cerca de 40% na Catalunha que apoiam a separação.

O governo regional basco atualmente é dirigido pelo moderado Partido Nacionalista Basco (PNV, em espanhol) e o dirigente regional, Íñigo Urkullu, afirmou várias vezes que não aposta na secessão.

Vacinados

"Nós estamos vacinados, já tivemos problemas que os catalães não tiveram", afirma Alberto, empresário de 55 anos de Bilbao, favorável a uma Espanha federal, mas que prefere não informar seu sobrenome. Ele se refere aos 829 mortos atribuídos oficialmente ao ETA, que abandonou a luta armada em 2011.

O País Basco conta, no entanto, com autonomia fiscal, um sistema muito vantajoso e defendido por muitos catalães para sua região.

A secretária Isabel González, de 37 anos, argumenta que o independentismo radical tem poucas chances de ressurgir na região em razão do atual governo ser nacionalista moderado e "saber administrar muito bem a questão do dinheiro". "Com a crise, as pessoas pensam mais em seus trabalhos do que na política."

Em seu elegante escritório em San Sebastián, o advogado Rubén Múgica garante que no coletivo de famílias das vítimas do ETA, do qual é um dos membros de mais destaque, o tema catalão nunca é discutido.

"Me parece que algumas pessoa são favoráveis enquanto que outras são contrárias. Mas a opção pelo desinteresse (em relação ao assunto) também tem que ser legítima", aponta Múgica.

Os ecos da crise catalã fizeram com que nos últimos dias o lide regional Urkullu se manifestasse e pedisse ao governo central espanhol uma votação em comum acordo entre as partes e o reconhecimento de Catalunha e País Basco como nações.

O conservador premiê espanhol, Mariano Rajoy, precisa do apoio dos cinco deputados bascos no Parlamento para conseguir aprovar o orçamento para o próximo ano. Na atual conjuntura, no entanto, "será muito difícil que o PNV apoie o orçamento federal porque seu eleitorado, que em parte é separatista, nunca aceitaria", diz uma fonte do governo regional.

De acordo com vários especialistas, trata-se de uma manobra pragmática, com objetivo de negociar mais autonomia para a região e não para relançar um movimento independentista.

"Querem obter o melhor acordo possível sem estarem novamente em evidência", analisa Caroline Gray, especialista em movimentos separatistas na universidade britânica de Aston. 

Em seu imponente hotel de pedra perto de Eibar, Esther Gisasola, de 75 anos, com seus cabelos brancos impecavelmente penteados, diz sentir-se "basca e, em nada, espanhola". "É o momento de colocar tudo sobre a mesa. Vamos ver se com a pressão da Catalunha a Espanha vai renovar toda a nossa democracia." / AFP

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