Matthew Busch/The New York Times
Matthew Busch/The New York Times

Pais de 545 crianças imigrantes separadas na fronteira dos EUA continuam sem ser localizados

Um novo relatório mostra centenas de casos em que menores de idade foram tirados de suas famílias e continuam sem estar na presença dos responsáveis legais

Redação, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2020 | 15h59

NOVA YORK - Mensagens em emissoras de rádio estão sendo veiculadas no México e na América Central. Pesquisadores nomeados por tribunais estão andando de motocicleta em comunidades rurais nas encostas da Guatemala e comparecendo a cortes em Honduras para fazer buscas em registros públicos.

Seus esforços são parte de uma ampla campanha para rastrear pais separados de seus filhos na fronteira dos EUA, ação iniciada em 2017 sob a política de imigração mais contestada da administração Trump. Agora está claro que os pais de 545 das crianças migrantes ainda não foram encontrados, de acordo com documentos judiciais protocolados esta semana em um caso que questiona a prática. Cerca de 60 das crianças tinham menos de 5 anos quando foram separadas, mostram os documentos.

Embora as tentativas de encontrar os pais separados já ocorram há anos, o número de pais que foram considerados "inacessíveis" é muito maior do que se conhecia.

Sob ordem judicial, o governo primeiro forneceu uma prestação de contas das famílias separadas em junho de 2018, relatando que cerca de 2.700 crianças foram tiradas de seus pais depois de cruzar para os Estados Unidos

Depois de meses de busca por uma comissão de direção nomeada pelo tribunal, que inclui um escritório de advocacia privado e várias organizações de defesa de imigrantes, todas essas famílias foram finalmente localizadas e tiveram a oportunidade de se reunir.

Mas, em janeiro de 2019, um relatório do Gabinete do Inspetor-Geral do Departamento de Saúde e Serviços Humanos confirmou que muito mais crianças haviam sido separadas, inclusive sob um programa piloto anteriormente não divulgado realizado em El Paso entre junho e novembro de 2017, antes da amplamente divulgada política de "tolerância zero", promovida pelo governo, entrar oficialmente em vigor.

Sob essa política, a administração Trump instruiu os promotores a abrirem processos criminais contra aqueles que cruzaram a fronteira sem autorização, incluindo pais, que foram separados de seus filhos quando foram levados sob custódia

A administração Trump lutou durante meses contra o fornecimento de documentação sobre as famílias adicionais, argumentando que não era necessário porque as crianças já haviam sido liberadas da custódia federal para os cuidados de padrinhos, que normalmente são parentes ou amigos da família. Os pais das crianças haviam sido deportados sem eles.

Mas em junho de 2019, por ordem da Justiça, o governo acabou reconhecendo que mais 1.556 crianças foram separadas de suas famílias; 200 delas tinham menos de 5 anos de idade.

Quando essa informação foi divulgada, os esforços de busca começaram novamente, mas se tornaram significativamente mais difíceis devido ao tempo que passou entre o momento em que as crianças foram libertadas da custódia federal e o momento em que os pesquisadores voluntários começaram a tentar encontrá-las. 

Pandemia

O esforço atingiu outro obstáculo com o surto da pandemia do coronavírus, durante o qual as viagens pelos países da América Central, onde vive a maioria das famílias, foram duramente restringidas.

"A administração Trump não tinha planos de rastrear as famílias ou reuni-las e é por isso que estamos na situação em que estamos agora, para tentar prestar contas por cada família", disse Nan Schivone, diretora jurídica da organização Justice in Motion, que está liderando os esforços de busca local para famílias separadas.

A União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU), que está liderando a contestação jurídica à política de separação das famílias, disse que também não conseguiu encontrar 362 das crianças, muitas das quais provavelmente moram nos Estados Unidos, cujos pais foram considerados inacessíveis.

“O fato de eles terem ocultado os nomes do tribunal, de nós, do público, foi espantoso”, disse Lee Gelernt, o principal advogado no caso da ACLU sobre separações familiares. "Nós poderíamos estar procurando por eles o tempo todo." As últimas descobertas foram relatadas pela primeira vez pela NBC News.

Em alguns casos, os membros da comissão tiveram apenas nomes e países de origem para prosseguir na tentativa de localizar pais separados. Mesmo depois de realizar buscas de registros públicos para identificar as cidades de onde as famílias eram, eles enfrentaram obstáculos adicionais. 

Muitas das famílias deixaram suas casas porque estavam fugindo da violência ou extorsão, e intencionalmente, ocultaram informações de amigos e vizinhos sobre para onde estavam indo. Os pesquisadores presumem que cerca de dois terços dos pais procurados agora estão de volta aos seus países de origem.

Como parte do processo legal sobre separações de famílias no Tribunal do Distrito Federal em San Diego, supervisionado pela juíza Dana Sabraw, os esforços de busca continuarão e o governo será obrigado a fornecer informações sobre quaisquer famílias adicionais separadas na fronteira.

Em outubro de 2019, o governo havia fornecido informações de contato para mais de 1.100 pais adicionais que haviam sido separados de seus filhos, mas argumentou que não divulgaria informações sobre cerca de 400 dos pais porque esses indivíduos tinham antecedentes criminais que impediam o governo americano de reuni-los com seus filhos de acordo com as políticas do Departamento de Segurança Interna.

Dos mais de 1.100, a comissão de direção conseguiu localizar os pais de 485 crianças separadas. O resto não foi encontrado. / NYT

 

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