Ng Han Guan/AP
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Pais de manifestantes entrincheirados em universidade vão para linha de frente em Hong Kong 

Com a polícia sitiando mais de mil manifestantes na Universidade Politécnica de Hong Kong, nesta semana, um novo grupo se envolveu na crise: os pais

Tiffany May e Paul Mozur / The New York Times, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2019 | 08h00

HONG KONG - Uma mãe se ajoelhou em frente aos policiais antimotim e implorou-lhes que libertassem a filha. Outra pediu para levar uma sopa ao filho encurralado. Um pai viu rapidamente o filho pela primeira vez em dias  - antes de o rapaz ser levado algemado.

Com a polícia sitiando mais de mil manifestantes na Universidade Politécnica de Hong Kong, nesta semana, um novo grupo se envolveu na crise: os pais.

Suas vozes assustadas, tristes, iradas, pediam uma solução humanitária para o impasse no câmpus, onde várias dezenas de jovens continuam resistindo. As histórias desses pais traduzem compreensão com a atitude dos filhos e busca de soluções em meio a conflitos políticos caracterizados por opiniões intransigentes. Alguns deles disseram que testemunhar as táticas policiais os fez simpatizar mais com as ações dos filhos.

“Com minha filha lá dentro, vi de perto a linha de frente”, disse Sam Ho, de 43 anos, design de interiores. A filha, de 17 anos, disse à mãe, no domingo, que ia à universidade, conhecida como PolyU, para devolver uns livros. Lá dentro, ela se juntou a um grupo reunido num encontro pela paz. Logo em seguida, sua comunicação online foi cortada.

Nesse domingo a polícia bloqueou todas as saídas do câmpus depois que manifestantes incendiaram uma ponte, paralisando o tráfego num túnel estratégico ao lado do complexo universitário. O ataque à ponte, na verdade, deixou os manifestantes sitiados, com as opções de tentarem abrir caminho à força ou saírem algemados. A ação também levou outros manifestantes, que apoiavam a ocupação, a violentos confrontos com a polícia pela cidade.  

“Antes eu me questionava sobre certas coisas que os manifestantes estavam fazendo, mas agora entendo melhor por que eles tiveram de usar essas táticas”, disse Ho, preocupado com que a polícia atacasse os manifestantes e batesse em sua filha. Gravações de prisões efetuadas fora do câmpus mostraram policiais agredindo estudantes detidos.

Ho estava tão perturbado que se juntou a três outros pais numa tentativa desesperada de resgate. O grupo escalou uma cerca fechada com correntes para tentar entrar no câmpus, mas desistiu depois que um deles levou um tiro de bala de feijão.

A proximidade do conflito mudou também a visão de Ho sobre os coquetéis molotov lançados pelos estudantes. “Os coquetéis visam principalmente a criar um espaço entre manifestantes e polícia”, disse ele.

Ho era um de centenas de pais, a maioria com filhos dentro da universidade, que se sentaram perto do cordão policial usando máscaras e portando cartazes com mensagens como “Não matem nossos garotos” e “Eles são filhos de Deus. Deixem que saiam!”. Muitos disseram que estavam ali apenas para ficar próximos dos filhos lá dentro, a umas poucas dezenas de metros.

Numa entrevista à imprensa na terça-feira, vários pais questionaram as acusações que se tornaram padrão no impasse político que a cidade vive. Eles criticaram as autoridades por tacharem todos que se encontravam no câmpus de rebeldes. Há meses que a polícia e o governo de Hong Kong, ao lado da imprensa estatal chinesa, usam o termo rebelde para qualificar manifestantes, sejam eles violentos ou pacíficos.

“Todos os estudantes lá dentro são acusados de rebelião, não importando seu grau de participação. Que lógica é essa?”, perguntou Chu Chan, de 50 anos, funcionária de um armazém. Segundo ela, seu filho continua no câmpus por medo de ser condenado aos 10 anos de prisão por rebelião com que os ocupantes foram ameaçados. 

Até a noite de terça-feira, o jovem permanecia na PolyU. Chan disse que o filho estuda para ser assistente social e cuidar de outras pessoas. “Quando soube que ele estava dentro, tremi, mas então deduzi ele devia estar precisando de mais ajuda que eu”, argumentou ela.

Para os pais, a possibilidade de detenção dos filhos é só mais um dos motivos de preocupação. No câmpus, a comida começa a escassear, o sinal dos celulares é intermitente e o suprimento de água às vezes é cortado.

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Segundo os estudantes, a comida e outros suprimentos de que dispõem são inadequados e estão sem atendimento de emergência desde que paramédicos foram presos. Durante um ataque da polícia na manhã de domingo, explosões e tiros foram ouvidos nos edifícios. À noite, a polícia advertiu que poderia usar munição de verdade contra manifestantes.

Houve tentativas bem e malsucedidas de deixar a universidade. Alguns estudantes desceram em cordas e fugiram na garupa de motocicletas que esperavam do lado de fora. Outros se atiraram inutilmente contra nuvens de gás lacrimogêneo tentando atravessar cordões de policiais armados. Dezenas que tentaram sair pelo esgoto, passaram mal e não conseguiram deixar o câmpus.

Voluntários informaram que pelo menos 200 manifestantes conseguiram escapar. Desse total, 70 foram internados com hipotermia e intoxicação pelo contato com o esgoto.

Segundo a polícia, de um grupo de estudantes secundários que pôde sair na manhã de terça-feira 1.100 foram detidos ou fichados. A filha de Ho estava entre eles.

Os protestos também provocaram conflitos familiares.

Eva Lau, empresária de 51 anos, disse que esperava manifestações pacíficas e discordou do filho de 22 anos por participar de manifestações que desandaram em violência e vandalismo. Na noite de domingo, quando a luta entre manifestantes e polícia na PolyU tornou-se mais feroz, o filho de Lau disse que pretendia ir ao encontro pela paz na unversidade. Quando ela tentou dissuadi-lo, ele argumentou: “Se todo mundo pensar como você, ninguém mais vai protestar contra nada”.  / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

 

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