Scott Nelson/The New York Times
Scott Nelson/The New York Times

''Pais'' do levante, tunisianos dão apoio a líbios

Jovens de Túnis vão às ruas contra repressão no país vizinho e dão como certa saída de Kadafi; Tunísia recebe famílias de refugiados

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2011 | 00h00

As declarações do ditador líbio, Muamar Kadafi, prometendo lutar "até o martírio" provocaram revolta em Túnis, capital da Tunísia, onde o governo de Zine al-Abidine Ben Ali foi o primeiro a cair na onda de protestos que se alastra pelo Oriente Médio. Em solidariedade aos vizinhos ao leste, milhares de manifestantes tunisianos se concentraram na manhã de ontem em frente ao consulado da Líbia.

Com palavras de ordem e bandeiras da Líbia anteriores a 1969 (quando Kadafi assumiu o poder) eles gritavam: "Ben Ali, Mubarak, agora Kadafi", enumerando os ditadores árabes já derrubados - com o coronel líbio no mesmo balaio.

Em Ras Djir, maior posto de fronteira com a Tunísia, onde a guarda líbia chegou a ser desmobilizada por algumas horas no domingo, o clima é de alívio entre as centenas de tunisianos que conseguiram deixar o país vizinho.

"Não se sabe ao certo o que está acontecendo no país, mas todos falam que uma carnificina pode acontecer", disse ao Estado Mehdi Charbi, tunisiano que trabalhava no lado líbio.

Quem deixa o país é motivado principalmente por relatos ou rumores que tomou conhecimento. E não raro as informações são totalmente contraditórias.

"O governo está caindo", garante Yannis Masmoudi. "Kadafi está chamando mercenários do Níger, Chade, Gabão e Congo. Não sei se os líbios vão conseguir derrubar o governo", retruca Rayen Cheniour.

Um indício de que o governo já não controla direito o país é o fato de que muitos dos 30 mil tunisianos que vivem na Líbia estão deixando o país sem vistos de saída, normalmente exigidos.

Rumo ao Cairo. No lado oposto do país, na fronteira com o Egito, algumas equipes de jornalistas estrangeiros conseguiram ingressar na Líbia e se dirigiam a Tobrouk, uma das cidades que supostamente está nas mãos dos revoltosos.

Segundo relatos, praticamente toda a faixa de fronteira entre a Líbia e o Egito está fora do alcance das forças de Kadafi. Egípcios deixavam o território líbio com vans, carros e até mesmo charretes, contando histórias de mercenários e bombardeios contra civis desarmados.

"Kadafi está louco. Está ocorrendo um massacre lá", disse à Associated Press Ashraf Mohammed, que trabalha como carpinteiro em Tobrouk. "Estavam abrindo fogo contra civis e crianças. Nos contaram sobre bombardeios. Tenho amigos que não conseguiram fugir!"

As famílias que cruzavam a fronteira Egito adentro afirmavam que os guardas líbios haviam abandonado todos os postos. No lugar dos soldados, milicianos de tribos locais que decretaram guerra ao regime Kadafi controlavam o fluxo de pessoas.

Ainda na Líbia, policiais de trânsito tentavam controlar o fluxo de veículos, gritando para que os carros que levavam refugiados dessem lugar a ambulâncias que queriam passar.

Do lado egípcio da fronteira, militares montaram um hospital de campanha para acolher os cidadãos que fugiam da Líbia. "Há dois milhões de egípcios vivendo em território líbio e muitos deles estão voltando para casa", disse o médico Amin Gabr. "Por enquanto não tivemos casos de ferimentos graves - apenas contusões e ferimentos leves." / COM AP

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