País é rico em culturas, mas fragmentado socialmente

Israel preserva democracia, apesar de divisões sociais, religiosas e étnicas

Daniela Kresch, O Estadao de S.Paulo

03 de maio de 2008 | 00h00

Nas ruas de Israel, é comum encontrar letreiros em inglês, russo e árabe, além da língua principal, o hebraico. Pelas calçadas, escuta-se uma miríade de dialetos e sotaques. Para um país com pouco mais de 7,2 milhões de habitantes e menor do que Sergipe, a variedade interna impressiona. Há divisões por religião, etnia, país de origem, status social e ideologia política, para citar algumas. O resultado é um país rico em culturas e diversidades, mas fragmentado socialmente. A principal divisão - e a mais complicada - é entre judeus e árabes. No Estado judeu, um em cada cinco israelenses (19,5%) é árabe. Apesar de gozarem dos mesmos direitos, a maioria tem dificuldade de sentir-se em casa no país onde nasceu. A começar pelos símbolos nacionais. O hino e a bandeira israelenses fazem menção direta ao judaísmo. Os jovens árabes também são dispensados do serviço militar. A minoria árabe sente-se hostilizada pelo governo e alienada pelo restante da população. Muitos denominam-se "palestinos-israelenses" e sentem-se mais ligados ao governo de Ramallah do que ao Parlamento israelense em Jerusalém, mesmo contando com 10 deputados entre os 120 do Knesset. O caráter judaico do país, que tanto incomoda os árabes, é o que mais une os judeus israelenses (76% da população). Mas ainda assim há divisões. Um em cada quatro é imigrante da antiga União Soviética. Desde o começo da década de 90, nada menos que 1,3 milhão de russos, ucranianos e georgianos desembarcaram no país. O choque cultural e a dificuldade do mercado de trabalho em absorver tanta gente levou boa parte a alienar-se da sociedade, continuando a falar russo e a conviver apenas com seus compatriotas. Recentemente, as autoridades israelenses descobriram que cerca de 20% desses imigrantes não são judeus. Mentiram sobre sua religião para fugir da ex-URSS. Entre eles, há até mesmo anti-semitas.Além dos russos, os imigrantes etíopes também encontram dificuldades de adaptação em Israel. No fim da década de 80, tribos do interior da Etiópia foram reconhecidas como judias pelo rabinato israelense e ganharam o direito de emigrar. Só na década de 90, mais de 80 mil entraram pela primeira vez num avião e desembarcaram em Israel. Hoje, a segunda geração de etíopes fala hebraico e participa da vida do país, mas reclama de um indisfarçável racismo dos israelenses. Ironicamente, eles enfrentam dificuldades num país onde, até pouco tempo atrás, a maioria dos habitantes havia nascido em outros lugares. Nos cinco primeiros anos de vida, entre 1948 e 1952, Israel recebeu 1 milhão de imigrantes, na maioria refugiados europeus (os ashkenazi) que sobreviveram à 2ª Guerra. Nas décadas seguintes, foi a vez da imigração de milhões de judeus orientais (os mizrahi), de países árabes como Iraque, Marrocos e Iêmen, além do Irã. Todas essas divisões ainda são sublinhadas por outra: entre laicos e religiosos. Metade (51%) dos israelenses define-se como secular. A outra metade é de religiosos - sendo 8% ultra-ortodoxos. Os dois grupos convivem bem, mas há ressentimento mútuo. Laicos não apreciam as tentativas dos religiosos de limitar certas liberdades para seguir os preceitos bíblicos. Não há transporte público aos sábados (dia sagrado para o judaísmo), a maioria dos restaurantes só serve comida kosher e os ortodoxos são dispensados do serviço militar. Já os religiosos reclamam da falta de pudor em locais públicos numa sociedade onde a minissaia e as noitadas em discotecas são comuns. Soma-se a isso a desigualdade social. A distância entre ricos e pobres aumentou nos últimos anos, uma novidade num país que se orgulhava de ter bases socialistas. Sem recursos naturais, Israel investiu no capital humano para inserir-se no mundo globalizado. Mas, para diminuir os gastos públicos, o governo tomou medidas duras, eliminando subsídios para desempregados e mães solteiras. A conseqüência é um abismo social cada vez maior. Hoje, 1,5 milhão de israelenses vivem abaixo da linha da pobreza, com renda mensal de US$ 500.Politicamente, os israelenses também estão divididos. A grosso modo, metade tende para a esquerda e metade para a direita - posições que se referem, em grande parte, às negociações de paz com os palestinos. Apesar da fragmentação, 78% dos israelenses se dizem patriotas. Sessenta anos após sua fundação, Israel ainda consegue manter-se um país democrático e sem sombra de guerras civis, apesar de extremamente heterogêneo.

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