RODRIGO CAVALHEIRO/ESTADÃO
RODRIGO CAVALHEIRO/ESTADÃO

Pais enfrentam saia justa para explicar plantio a crianças

Crescimento das plantações caseiras de maconha submete pais e filhos argentinos a novas situações

Rodrigo Cavalheiro, correspondente, O Estado de S. Paulo

14 de junho de 2015 | 03h00

BUENOS AIRES - Embora as lojas especializadas em artigos para cultivo da maconha na Argentina chamem atenção pela velocidade com que se multiplicam, provavelmente seu maior impacto não possa ser mensurado em números. 

“Meu filho de 14 anos diz para eu tirar as plantas da sala porque os amigos vêm jogar videogame. Tem vergonha”, disse ao Estado o comerciante Fernando Suárez, que na sexta-feira comprava aditivos e fertilizante com base em fezes de morcego em uma loja da Avenida Santa Fé, em Buenos Aires. 

Ele cultiva seis pés em Catamarca, 1,5 mil quilômetros ao norte da capital. Quando mantinha as plantas no pátio de casa, não ouvia reprimendas do filho. “O problema é que na rua roubam tudo. Por isso passei para dentro”, explica. Ele é o único na casa que fuma e tem outro filho de 8 anos que também convive com plantação. 

Nunca explicou o que são porque acredita que eles descobrem sozinhos. “O menor é o mais esperto. Ri muito quando me vê com os olhos vermelhos.” Suárez acredita que os meninos não se interessarão em provar a droga, pois parecem incomodados com o cheiro. “Se um dia algum pedir, vai ter de ser depois dos 16 anos”, estipula.

Segundo Pablo Fiumano, dono da Weed Grow, cada vez mais pais vão com os filhos a sua loja. “Mesmo os que não fumam preferem que o filho plante em casa e não compre do traficante”, sustenta.

Dono da Llega de Lobby, loja com 1.500 produtos em uma das áreas mais caras do bairro de Palermo, Ignacio Goyret crê que o narcotráfico tenha sido afetado pelo autocultivo. Pelo menos entre o público mais rico. Ele estima que nos últimos cinco anos aumentou em 500% o número de agricultores urbanos. Goyret plantava em casa havia dez anos quando montou a loja. “O cultivo é uma febre que acabará se houver a legalização. Plantar dá trabalho. Se a venda for permitida, e só foi proibida nos últimos 60 anos da história, a maioria não vai querer comprar insumos. Vai comprar a droga certificada”, acredita. 

Assim como Fiumano, ele nota casos de famílias obrigadas a rediscutir papéis em função do plantio da droga em casa. “Aparecem muitos pais que tiveram de ver como dizer a seus filhos que consumiam o que cultivavam. Outros preferem que um filho esteja plantando em casa do que estar metido em uma favela, complicando-se para obter algo de pior qualidade”, afirma. 

Contramão. Tamanho apoio não chegou à família de Bruno, o vendedor de roupas do bairro de Colegiales que convive com a eventual perda de memória. Há três meses, ele evita a visita de sua mãe. Sentiria desconforto se ela visse os dois pés de maconha que ocupam metade de seu armário branco de quatro portas. 

As duas plantas, expostas a uma luz fluorescente refletida no papel alumínio no interior, estão prestes a florescer. “Exigem algum sacrifício. Às 6 horas da manhã a luz acende automaticamente e me acorda”, reclama.

Se a Argentina tivesse lei semelhante à uruguaia, que permite a registrados ter seis pés em casa e consumir até 40 gramas por mês – há 2,3 mil uruguaios nessa situação –, Bruno estaria entre deles. “Sei que é ilegal o que faço. Antes até tinha algumas na varanda, mas dá uma insegurança.” 

Embora haja decisões em tribunais superiores permitindo o cultivo e em geral a prática seja tolerada pela polícia, principalmente nas maiores cidades, a lei vigente ainda impõe penas de 4 a 15 anos de prisão. Se há certeza de que o plantio é para consumo pessoal, fica entre 1 mês a 2 anos de detenção. 

Como cabe a cada juiz avaliar que quantidade pode ser considerada para uso próprio, eventualmente ganham o noticiário decisões exóticas. Em 2013, um jovem de 26 anos, Fernando Colombini, ficou em prisão domiciliar um mês por ter oito plantas no pátio de casa. Ele foi denunciado por um vizinho com quem tinha brigado. 

Embora não tenha “saído do armário” diante da família no tema maconha, Bruno constata que é cada vez mais comum usuários da droga admitirem o consumo e são mais raros casos como o de Colombini. “Fui jogar futebol com um grupo que não conhecia. Dos 11, 8 fumavam”, exemplifica.

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