Jamil Chade / Estadão
Jamil Chade / Estadão

Pais enviam filhos sozinhos para a Alemanha na esperança de salvar a família

Segundo as leis alemãs, se um menor receber asilo no país poderá trazer seus parentes

Jamil Chade, ENVIADO ESPECIAL, PASSAU, ALEMANHA, O Estado de S. Paulo

04 Setembro 2015 | 02h00

Desesperados diante de 5 anos de guerra civil, muitos sírios passaram adotar uma nova estratégia para tentar salvar suas famílias: mandar crianças sozinhas para percorrer mais de 4 mil quilômetros, cruzar o Mediterrâneo e chegar até a Alemanha.

Pelas leis adotadas em Berlim, se uma criança desacompanhada receber o status de refugiado, ela tem o direito de trazer de forma legal seu pai ou sua mãe, que também recebe o benefício.

Dados da ONU indicam que 12 mil crianças morreram na guerra e 1 milhão delas foram feridas. Dos atuais 4 milhões de refugiados sírios, mais de 1 milhão são crianças. Até chegar ao destino final, o que esses menores enfrentam é uma realidade de dor, medo e desespero – sempre nas mãos de atravessadores e sem contato com as famílias.

Na cidade de Passau, que serve de entrada para os refugiados ao território alemão, o Estado visitou um centro dedicado exclusivamente aos estrangeiros menores de idade. Ali, garotos de até 17 anos podem pela primeira vez em semanas deitar em camas, comer e até jogar futebol em um campo. O centro recebe 40 crianças por dia.

“Chegar aqui foi um sonho”, contou Sheban Firas, de 16 anos. Quando o Estado entrou no centro, ele estava agachado tentando entender o mapa da Alemanha. Ao seu lado, um grupo de pré-adolescentes tentava entender algumas palavras em alemão.

Firas, assim como os demais, foi levado da Síria até a Europa por traficantes. “Meus pais pagaram muito dinheiro a essas pessoas. Eu sou a última esperança da minha família.”

O primeiro trajeto da viagem ocorreu entre a Síria e a Turquia. "Fomos andando. Nunca andei tanto na minha vida e no escuro", disse. No caminho, foi obrigado a nadar para atravessar rios e temeu quando entrou por uma floresta. "Não tenho ideia de onde estava." 

Outro momento de tensão foi o cruzamento do Mar Mediterrâneo. "O barco balançava muito", disse o garoto, que ainda teve de caminhar em vários outros trechos. Dezessete dias depois, ele entrava pela fronteira alemã e se entregava para a polícia.

Inrad Ali Hussein, de 17 anos, diz que a família decidiu enviá-lo com atravessadores à Europa para que não fosse capturado pelo Estado Islâmico. Mas, pelo caminho, chegou a pensar que ia morrer.  “Entre a Hungria e a Áustria, fomos colocados num caminhão. Éramos 60 pessoas de pé, sem nos mexer por 8 horas seguidas”, disse. “Não tinha oxigênio. Pensei que fosse morrer.”

Sua história guarda semelhança grande com a das 71 pessoas encontradas mortas em um caminhão numa estrada austríaca. O grupo morreu sufocado, enquanto o motorista fugiu. Questionado se ele sabia do que tinha acontecido com as 71 pessoas, Hussein diz que não tinha ouvido falar na história.

A integração é lenta e o governo quer ter certeza de que não vai criar guetos. Para isso, o reaprendizado da vida social começa ainda no centro de Passau. Pelas paredes, as "regras da cas" estão escritas em alemão e árabe. Uma escala de quem limpa a cozinha e as mesas também foi estabelecida, além de cursos iniciais de alemão. 

Ralf Grunow, líder do centro, explica que os garotos passarão por diversas casas até encontrar uma moradia definitiva. Num primeiro momento, eles são alojados no ginásio. "A primeira medida é de demonstrar a eles que estão em segurança. Que o teto não será destruído", explicou. 

Médicos fazem consultas e alguns confessam que estão comendo de forma suficiente pela primeira vez em meses. Também ganham 10 euros por semana para poder comprar um chocolate, uma revista ou qualquer outra coisa que os permita entender que vão receber apoio. 

Dali, eles são levados para outra residência, onde começam a ter uma vida "normal" e serão entrevistados.  Também será nesta fase que os serviços de inteligência vão tentar identificar se há alguma infiltração de grupos terroristas. 

Finalmente, num terceiro momento, vão para as casas onde vão morar de forma definitiva, indo para a escola com outros alemães. "A integração precisa ser gradual", explicou o coordenador. 

Ao final desse processo que pode durar três meses, e se o asilo for concedido, o plano da família começa a se tornar realidade e um dos pais pode solicitar um visto na Embaixada da Alemanha em Beirute ou em Istambul. 

Mas só a perspectiva de que tal cenário seja possível já levou milhares de crianças tentar a sorte. Na região do sul da Bavária, pelo menos cinco centros de menores de idade estão lotados. 


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