País está perto de uma ruptura, dizem analistas

NOVA YORK

Gustavo Chacra, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2011 | 00h00

Em meio aos levantes na Síria, a comunidade internacional agora discute se o regime de Damasco conseguirá sobreviver, como no Marrocos, ou se naufragará, como o do Cairo. Apesar de ainda apostarem na manutenção do líder sírio no poder, especialistas em Oriente Médio já elaboram cenários sobre a Síria pós-Assad.

Com um dos aparatos mais repressivos do Oriente Médio e um estado de emergência em vigor há 40 anos, era praticamente impossível protestar contra o regime sírio. Desde a última semana, não é mais. Milhares de pessoas têm protestado às ruas de Daara, que se tornou o centro das ações contra o presidente Bashar al-Assad. Analistas lembram, porém, que a cidade se difere do restante do país por ser controlada por famílias sunitas tradicionalmente hostis ao regime de Assad.

"Os protestos na Síria são geograficamente limitados a Daraa e não oferecem sério risco ao regime. Nos principais centros populacionais, os sírios não são contra Assad", afirmou Ayham Kamel, da consultoria de risco político Eurasia. Caso as reformas anunciadas não sejam suficientes para acalmar a população, "a tendência deve ser o uso da força", acrescenta. Ontem, o regime libertou 200 presos políticos, em mais uma tentativa de acalmar os opositores.

"A questão é se a oferta de concessões preventivas, como fizeram o sultão de Omã e os reis de Jordânia e Marrocos, será suficiente para conter os protestos, ou se a fúria diante das mortes em Daraa servirão de estopim para mais levantes", escreveu Michael Collins, diretor do Instituto de Oriente Médio em Washington, em seu blog.

Segundo o International Crisis Group, "há duas opções para Assad. Uma delas envolve uma imediata e arriscada iniciativa política que talvez convença o povo sírio de que o regime está disposto a mudanças dramáticas. A outra envolve uma escalada da repressão, que tem chances de aumentar a violência".

Em outras três ocasiões em que viu seu regime ameaçado, o presidente conseguiu dar a voltar por cima e se fortalecer. Na primeira delas, pouco depois de assumir o poder em 2000, quando bateu de frente com a velha guarda de seu próprio regime. A segunda, ao ser colocado como próximo da lista após a queda de Saddam. Por último, em 2005, ao ser obrigado a retirar as tropas sírias do Líbano.

Analistas, até a semana passada, diziam que a Síria estaria imune aos protestos por três motivos. Primeiro, sua posição anti-Israel. Hosni Mubarak, ex-presidente do Egito, era o principal aliado dos israelenses na região. Em segundo lugar, os mais de um milhão de refugiados iraquianos que vivem na Síria dizem que o processo de democratização pode levar ao caos, como em Bagdá. Por último, alguns dizem ainda que é melhor a estabilidade de um regime autoritário do que as incertezas de uma democracia com embates civis, como o Líbano.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.