Pais haitianos abandonam filhos

Após tragédia, muitos preferem deixar crianças aos cuidados de orfanatos, onde recebem comida e abrigo

Adriana Carranca, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2010 | 00h00

"Eiú! Água, água!", grita o menino, as mãos estendidas na frente do corpo mirrado, correndo em direção ao carro da ONU em patrulha pelas ruas de Porto Príncipe, a devastada capital do Haiti. Aparenta ter 2 ou 3 anos, mas, desnutridas, as crianças haitianas são pequenas e é difícil dizer a idade que têm.

Outros vêm atrás dele, surgindo das barracas do campo improvisado na praça do Palácio do Governo, onde1,5 mil famílias vivem sem luz ou água potável e dormem no chão, com o esgoto correndo a céu aberto.

Pouco mais de dez quilômetros dali, o portão de ferro de um orfanato divide o cenário de guerra de um jardim bem cuidado, com parquinho, campo de futebol, uma casa amarela e salas pintadas com desenhos infantis. Aos cerca de 100 meninos e meninas que moravam ali, somaram-se 412 crianças após o terremoto. E desde então, outras cinco, em média, são deixadas no portão da entidade todos os dias. Muitas têm família.

"Conseguimos encontrar muitos dos parentes, mas eles não querem as crianças de volta, simplesmente porque sabem que, aqui, elas estão sendo alimentadas, têm água, colchão para dormir e segurança, enquanto nos acampamentos a situação é terrível", diz Virgínia, a psicóloga da Aldeias Infantis SOS, que administra o orfanato.

Virgínia estima que, pelo menos, 200 entre as 521 crianças do orfanato têm os pais ou parentes próximos vivos. Quase todas chegaram ao orfanato sem os documentos, perdidos entre os escombros. "Temos trazido famílias que perderam crianças aqui para ver se as reconhecem, Mas, quando veem as condições que temos aqui, vão embora e não voltam. Algumas pedem para ficarmos com elas uns dias mais, até que consigam reorganizar a vida. Três meses se passaram e pouquíssimos vieram buscá-los."

PARA LEMBRAR

Terremoto matou pelo menos 230 mil

O tremor de 7 graus na escala Richter de 12 de janeiro no Haiti devastou a capital, Porto Príncipe, e deixou mais de 230 mil mortos. A tragédia também deixou desabrigados 1,6 milhão de haitianos - metade deles crianças e menores de 18 anos.

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