Justin Lane/EFE/EPA
Justin Lane/EFE/EPA

Pais negros educam seus filhos com advertências sobre racismo nos EUA

Discussão dura a vida inteira, com complexidades adicionais em marcos que incluem o início do ensino fundamental, a entrada no mercado de trabalho e a obtenção de uma carteira de motorista

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2020 | 04h00

A morte de George Floyd e os protestos subsequentes nos Estados Unidos colocaram a discussão sobre racismo na mesa de muitas famílias. Para os afro-americanos, no entanto, essa conversa sempre fez parte da educação dos filhos, para que se mantenham em alerta sobre os perigos que enfrentam no país.

"Não conheço pais negros que não tenham essa conversa com seus filhos", disse Tiffany Russell, de 26 anos. "Mas agora definitivamente é uma boa hora", acrescentou. 

Quando Tiffany tinha três anos, após um incidente dramático, sua mãe se sentou com ela e lhe explicou o que havia acontecido. Ela então aconselhou a filha sobre como se comportar no futuro.

"'Você precisa ter cuidado com a maneira como age, como reage. Não pode ser muito agressiva, ou ficar com muita raiva'. Ela me disse que, se um policial me parar, eu simplesmente não deveria dizer nada e apenas ouvir. 'Mesmo se você estiver chateada, você não pode mostrar que está chateada'", lembra Tiffany.

Glen Henry, um afro-americano pai de quatro filhos, conversou com seus dois mais velhos, de cinco e sete anos, sobre o que eles provavelmente encontrariam. 

YouTuber, ele filmou e postou a conversa nas redes sociais. Sua mulher, Yvette, inicialmente se opôs a tratar do assunto com crianças em uma idade tão nova. No final do vídeo, chorava. 

Henry a convenceu de que eventos recentes justificavam colocar o racismo na mesa com "crianças que não deveriam ter que aprender isso".

Brittany Everette, de 27 anos, uma mãe miscigenada da Virgínia, recorreu ao Twitter para saber se havia chegado a hora de conversar com seu filho.

"As crianças veem o mundo como esse lugar iluminado, cheio de oportunidades e maravilhas", afirmou.

Seu filho, que começará no jardim de infância no outono (hemisfério norte), às vezes se veste como um policial, contou ela. 

Para Tiffany Russell, proteger as crianças é "não fazer justiça".

"Não achei que [a conversa] tenha tirado nada da nossa inocência, ou parte de nossa infância", afirmou. "Nos tornou conscientes das nossas ações. É a realidade", resigna-se.

"Equilíbrio delicado"

Everette e seu marido, que é negro, finalmente concordaram que eram necessárias duas discussões: primeiro, sobre a questão racial; depois, sobre a brutalidade policial contra a minoria negra.

De várias maneiras, a discussão dura a vida inteira, com complexidades adicionais em marcos que incluem o início do ensino fundamental, a entrada no mercado de trabalho, ou a obtenção de uma carteira de motorista.

Joseph West, sócio do escritório de advocacia Duane Morris & pai, lembra-se do que seu próprio pai lhe disse antes de sair para seu primeiro passeio ao volante: ele o ensinou a dirigir com cuidado e a respeitar as regras de trânsito, mas também recomendou que não fizesse movimentos bruscos, se parado pela polícia, e a usar um tom respeitoso, mesmo que fosse parado sem justificativa.

A mensagem? "Embora a grande maioria dos policiais sejam pessoas boas, eles realmente têm o poder de tirar sua vida, e é muito mais provável que isso aconteça se você for um homem negro do que se não for", apontou.

"Foi uma realidade assustadora para assimilar na hora, e é algo que me acompanha até hoje", acrescentou West.

Segundo Everette, a mensagem varia para meninas e meninos.

"Meninos negros passam de garotinhos fofos a ameaças, enquanto meninas negras são sexualizadas e vistas como maduras em idades muito mais precoces", afirmou.

West já havia discutido questões de racismo com seus filhos, mas aprofundou o tema mais uma vez quando as imagens da morte de Floyd circularam on-line. 

"Você precisa manter um equilíbrio muito delicado", explicou.

"Você quer dar a eles informação suficiente para que possam tomar decisões informadas sobre suas interações, sem reduzir a confiança que quer que eles tenham", ensinou. 

"Existe uma linha tênue entre a confiança que vai ajudá-los a ter sucesso e o excesso de confiança que pode causar a morte deles", disse o advogado, que trabalha em questões de diversidade em sua empresa.

Depois de publicar um ensaio no site Law.com sobre a conversa com crianças negras a respeito dos julgamentos que eles enfrentarão, West disse que recebeu centenas de mensagens, a maioria de apoio.

Homens brancos, em especial, disseram a West que "o que ele expressou nunca lhes ocorreu e que eles teriam essa versão da conversa com seus filhos". 

"Isso foi muito gratificante", concluiu. /AFP

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