The Washington Post / Amanda Voisard
The Washington Post / Amanda Voisard

Pais no comício de Trump explicam protestos do Black Lives Matter aos filhos

Participantes de ato de campanha afirmam que manifestações são violentas e enaltecem o presidente

Robert Klemko, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2020 | 03h00

TULSA, OKLAHOMA - Nila Faulk, de 9 anos, estava saindo do comício de Trump com seus avós quando as palavras de ordem “vidas negras importam” soaram na rua onde os manifestantes estavam bloqueando o trânsito. Os cantos deram lugar a gritos e berros quando um homem branco saiu de um caminhão e jogou spray de pimenta no rosto de um dos manifestantes negros.

Quando os ativistas separaram os dois, Nila e seus avós correram para se afastar do quarteirão das brigas. "É uma vergonha", disse Ken Bonvillian, quando lhe perguntaram como explicaria à neta o que tinha acontecido.

“Só vou dizer a ela que a maneira como estão fazendo as coisas está errada”, disse ele sobre os manifestantes, cujas táticas ele viu como violentas. “Violência não é a resposta. Não é o que aprendemos sobre a história do nosso país”.

Ele tinha mais empatia para com os que protestavam pacificamente, embora Bonvillian não entenda por que estão em conflito com o presidente. “Querem igualdade, justiça, equidade”, disse ele. “Querem ter certeza de que temos um legado a ser transmitido para as próximas gerações. E eu realmente acho que Trump quer isso também”.

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Os protestos que cercaram o BOK Center, onde no sábado 20 o presidente Donald Trump fazia seu primeiro comício de campanha depois de vários meses, evitaram o confronto violento. Mas os frequentes conflitos verbais com as pessoas que participaram do comício foram suficientes para atrair a curiosidade dos olhos das crianças que andavam de mãos dadas com parentes adultos e assistiam da primeira fileira a um capítulo tumultuado da história americana.

Críticas à violência 

Várias famílias pró-Trump ecoaram os sentimentos de Bonvillian enquanto voltavam para casa e viam os ativistas protestando contra o racismo estrutural e a brutalidade policial. Os manifestantes estão mal informados, eles diziam às crianças; Trump quer o melhor para todas as pessoas, até mesmo para os afro-americanos, disseram vários pais de família. Nós não vemos a cor das pessoas, e elas não deveriam ver também.

Nila se agarrou aos avós e, quando se sentiram suficientemente longe das ameaças, arrumou o gorrinho vermelho, branco e azul na cabeça. Outra criança estava sentada no colo do pai, num banco na calçada, vendo manifestantes que, armados com pistolas nos coldres e cinturões, trocavam ofensas e, ocasionalmente, empurrões com os apoiadores de Trump, alguns deles também armados com pistolas nos coldres e cinturões. Um garoto de 12 anos ajudava o pai a vender versões da bandeira dos Estados Confederados.

Alex Standridge, 12 anos, estava com os dois irmãos mais velhos, veteranos da Força Aérea, e via manifestantes trocando insultos com os homens que usavam bonés 'Make America Great Again. “Quero ser corajosa que nem meus irmãos”, Alex disse à namorada de seu pai.

Eles chegaram ao comício tarde demais para entrar no local, então ficaram no meio de uma multidão, na frente do portão, esperando para ver os manifestantes passarem. Richard Standridge, pai de Alex, disse a ela que os manifestantes estavam gritando porque ele vestia uma camisa com a bandeira americana, a bandeira pela qual seus irmãos “estavam dispostos a morrer”.

“Ela tem que escolher o lado dela”, disse Standridge. “Eu não posso escolher o lado dela por ela. E, para fazer isso, ela tem que ver o que está acontecendo. É a melhor coisa que podemos ensinar aos nossos filhos”.

O que ele diria a ela sobre os objetivos dos manifestantes?

“Acho que eles nem sabem o que querem”, disse Standridge sobre os manifestantes, “porque as vidas negras são importantes, sim. Todas as vidas são importantes. Tenho muitos amigos brancos e negros. Trabalho no campo do petróleo. Nós não vemos a cor das pessoas. Você trabalha, dá duro e volta para casa. Nada de cor de pele”.

Diante de todos os parentes no comício, Standridge disse: “ela vai tirar o máximo proveito disso, e isso moldará a vida dela, a maneira como ela lida com diferentes pontos de vista”.

Logan Renfro, 13 anos, de Fayetteville, Arkansas, estava com a avó Anne Harrison, 57 anos, a alguns quarteirões do BOK Center, onde viram a polícia dispersar manifestantes com spray de pimenta. “Vi um com a arma na mão”, disse ele, com os olhos brilhando, referindo-se a um policial.

Anne disse que os protestos borraram a linha entre o pacífico e o violento: “Eles estavam se manifestando de um jeito bem pacífico. Mas o discurso não era necessariamente pacífico”.

Ela e Logan não conseguiram entrar no comício, disse ela, pois uma mulher que trabalhava como segurança disse à multidão que os voluntários que checavam as temperaturas haviam voltado para casa e os portões estavam fechados. Então eles ficaram andando pela cidade, vendo os manifestantes. Ela lhe disse que a melhor maneira de aprender a verdade era vê-la com os próprios olhos.

Ku Klux Klan

Ela acrescentou que planeja contar a Logan como a Ku Klux Klan fora fundada pelos democratas. “Eu sei que eles querem igualdade e sou a favor”, disse ela, segurando a mão de Logan. “Os democratas ao longo da história não votaram a favor das vidas negras. Toda a KKK saiu do Partido Democrata. Você não pode dizer que as coisas mudaram. Ainda os usam para seus próprios objetivos. E seu objetivo hoje é jogá-los contra o presidente Trump, e isso me machuca o coração, porque eu valorizo os afro-americanos e eles foram prejudicados pelos democratas”.

No outro quarteirão, Chayson Cole, 11 anos, estava encostado numa parede de tijolos com sua mãe, April, funcionária da Universidade Estadual de Oklahoma que mora em Sallisaw. Ela disse que Chayson fora “amaldiçoado” por uma mulher de 30 anos que acusara April de criá-lo como racista.

Chayson, ela disse, lê regularmente edições impressas de dois jornais da região - o Sequoyah County Times, de Oklahoma, e o Southwest Times Record, de Fort Smith, Arkansas - e “ama o presidente”.

Se Chayson perguntasse o que os manifestantes estavam querendo, ela disse que responderia que eles queriam retirar o financiamento da polícia. Enquanto ela falava, o som de um carro arrancando em alta velocidade do cruzamento aumentou a tensão. “E eles não apoiam Trump”, disse April. “Acham que ele é racista, acham que todos aqui estão apoiando o ódio e o racismo. Realmente não entendo muito isso. Eu não vejo esse lado de Trump e não vejo isso nas pessoas aqui”.

Enquanto os carros da polícia rodavam com as sirenes ligadas, Joshua Brown, 12 anos, empurrava um carrinho com várias bandeiras à venda, ao lado do pai, Jeff Brown, 56 anos. Uma das bandeiras mostrava Trump como um soldado sem mangas, carregando uma metralhadora em chamas, semelhante ao Rambo. Outra dizia: “Trump 2020: Make Liberals Cry Again (Faça os liberais chorarem novamente, em tradução livre).

A mais vendida da noite: uma bandeira de Oklahoma com o escudo da tribo indígena da nação Osage misturada com a bandeira da Confederação. “Somos capitalistas”, disse Jeff. “Ofendemos a todos igualmente”.

Brown disse que, no passado, chegou a acreditar que a bandeira confederada representava a escravidão, mas seu pensamento mudou. “Desde então, aprendi muitas outras versões da história”, disse ele. “Acho que as pessoas têm permissão para ter suas próprias interpretações a partir de sua família e sua experiência”.

Ele disse que seu filho, que não vai à escola e é educado em casa, fez questão de comparecer ao comício, vindo com o pai da cidade de Albuquerque, Novo México, especificamente para ver os protestos do Black Lives Matter. 

Joshua vestia uma camiseta com a inscrição “LGBT” com um desenho da Estátua da Liberdade acima da letra L, um rifle de assalto (guns) acima da letra G, um copo cheio de cerveja (beer) acima da letra B e uma foto de Trump acima da letra T. “Mas Joshua terá que formar suas próprias opiniões”, disse Brown. “Na nossa família, nós usamos o cérebro”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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