Beatriz Bulla / Estadão
Angélica Camacho vende doces aos turistas que descem dos cruzeiros   Beatriz Bulla / Estadão

País sobrevive sob escombros após Furacão Maria 

Furacão que atingiu a ilha não foi o que fez o governador Ricardo Rosselló renunciar, mas influenciou

Beatriz Bulla / Enviada Especial a Corozal , O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2019 | 06h00

Cinco minutos de carro após sair do aeroporto, Zuny Torres, taxista, aponta para o lado esquerdo e mostra um telhado destruído. “Isso ainda está assim desde o Maria.” Ela então aponta para o lado direito: a bandeira de Porto Rico hasteada com as cores preto e branco, no lugar no azul, vermelho e branco, é a imagem dos protestos. O furacão Maria, que atingiu a ilha em 2017, não foi o que fez o governador Ricardo Rosselló renunciar, mas influenciou.

O país ainda vive sob escombros quase dois anos depois da passagem do Maria. Basta olhar com atenção para achar as lonas azuis do FEMA (a agência americana de ajuda em desastres) servindo de telhado. A comunidade de Estância del Sol, na cidade de Río Grande, parece ter mais cachorros do que gente. A cada duas casas, uma parece ou está abandonada. Normalmente as deixadas para trás são as sem teto ou com lona azul no lugar das telhas. Depois do furacão, o bairro ficou oito meses sem luz e, hoje, é uma região fantasma. Arline Alfaro ficou e faz as contas nos dedos de quanto tempo esteve sem eletricidade: 8 meses, conclui. “Eu nem posso reclamar, estamos vivos.”

O abandono piorou com o Maria, mas já existia. A dívida que levou o território americano a decretar falência, antes do furacão, esvazia os serviços públicos. Sem perspectiva, muitos migraram e a população na ilha caiu 15% desde 2008, com um envelhecimento maior do que o verificado nos EUA e queda drástica nos registros de nascimentos.

A população jovem decrescente fez centenas de escolas primárias fecharem as portas. Em um mesmo bairro, em Trujillo Alto, é possível achar duas escolas abandonadas a poucas ruas de distância. Depois do furacão, o governo anunciou que fecharia 283 escolas, em razão da operação abaixo da capacidade.

Angélica Camacho vende doces na beira do porto onde navios de turistas atracam. Nos últimos dois anos, teve de mudar seus filhos de escola três vezes. Professores da rede pública, como a mulher de Jesús Barreto, compram materiais escolares básicos como papel, giz e produtos de limpeza com seus salários.

Mais longe dali, Carmen Nereida Santiago Diaz usa guarda-chuva para ir ao banheiro quando chove muito. Mesmo com casa de cimento, as infiltrações no teto depois do furacão não foram totalmente reparadas. Ao lado de Carmen, Beylie Santiago Diaz, que vive perto, diz que uma das caixas que chegaram com roupas para doação veio misturada a lixo. “Não sei se foi engano, mas era puro lixo”, afirma. 

A viagem a Corozal é cheia de sinais da passagem do Maria: estradas remendadas pela metade, postes de iluminação caídos e muitos telhados azuis. No campo, como elas chamam a região, a perspectiva de mudança com a troca de governo é quase inexistente. 

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