País tem a pior colocação entre nações mais corruptas

Enquanto 90% da população sobrevive com US$ 1 ao dia, líderes da junta militar levam vida de luxo e conforto

AFP E AP, O Estadao de S.Paulo

27 de setembro de 2007 | 00h00

Rangum - Em meio à pior crise interna de Mianmá desde 1988, a organização Transparência Internacional divulgou ontem um relatório que classifica o país como o mais corrupto do mundo, ao lado da Somália. Dos 180 países avaliados pela entidade, Mianmá e Somália têm a pior nota (1,4 ponto, numa escala que vai até 10).O anúncio ressalta o drama no país, onde 90% dos birmaneses vivem com US$ 1 por dia, enquanto os membros da junta militar levam uma vida suntuosa. Nesse quadro, a reação a aumento de preços é quase sempre explosiva.No mês passado, o governo militar dobrou o preço dos combustíveis - que resultou em aumento das tarifas de ônibus. A maioria dos birmaneses, como a trabalhadora de construção Myint Myint, foi obrigada a reduzir o consumo de gêneros de primeira necessidade, incluindo o de alimentos."Meus dois filhos queixaram-se muito, mas agora eles já se acostumaram a comer apenas uma vez por dia", disse Myint Myint.Como fazem há décadas, alguns birmaneses suportam as recentes dificuldades com estoicismo e não têm participado dos protestos contra o governo, uma vez que sua prioridade é sobreviver. Outros, encorajados pelos monges, foram às ruas exigir mudanças.Além dos combustíveis, produtos como ovos, óleo de cozinha e aves também tiveram aumento de preço de, em média, 35%.Sean Turnell, pesquisador da economia de Mianmá da Universidade Macquarie, na Austrália, disse que os birmaneses têm adotado medidas dramáticas para sobreviver. Muitos andam quilômetros para ir ao trabalho - impossibilitados de pagar as tarifas de ônibus -, enquanto outros venderam móveis e utensílios domésticos.De acordo com Charles Petrie, chefe do serviço humanitário da ONU em Mianmá, o aumento de preços mostra que o governo não se importa ou não toma conhecimento das dificuldades enfrentadas pelos mais pobres. E os líderes militares nem mesmo se importam em esconder o gosto pela boa vida.A imagem do general Than Shwe, líder da junta militar, sofreu um golpe no ano passado quando um vídeo do luxuoso casamento de sua filha tornou-se público. O vídeo mostrava a noiva, Thandar Shwe, usando uma coleção de jóias de diamantes e recebendo presentes de US$ 50 milhões numa recepção suntuosa.Com recursos naturais abundantes e terras férteis, Mianmá deveria ser um dos países mais prósperos da região.Mas anos de desmandos governamentais posicionaram o país entre os 20 mais pobres do planeta, segundo estimativa da ONU. A renda per capita é de apenas US$ 170 - mais de dez vezes menor do que na vizinha Tailândia.O último superávit do país foi em 1962, ano em que os militares tomaram o poder.

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