Pakistan's Press Information Department/AFP
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Ao menos oito países abrem apurações sobre Pandora Papers; envolvidos negam ilegalidades

Denúncias após vazamento de 11,9 milhões de documentos de empresas de serviços financeiros levaram ao menos oito países a prometerem investigações; chefes de Estado e governos negam irregularidades

Redação, O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2021 | 13h56

Autoridades de pelo menos oito países anunciaram que vão abrir investigações para apurar o uso de paraísos fiscais por chefes de Estado e de Governo, empresários e celebridades que teriam ocultado ativos de centenas de milhões de dólares, segundo as denúncias do Pandora Papers, investigação jornalística coordenada pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ, na sigla em inglês) e publicados em várias reportagens de veículos como The Washington PostThe Guardian e BBC. As denúncias vão de corrupção à lavagem de dinheiro, passando por evasão fiscal.

Prometeram investigações sobre os fluxos de dinheiro, propriedades e outros ativos ocultos no sistema financeiro offshore, autoridades no Paquistão, México, Espanha, Brasil - onde a Procuradoria-Geral da República abriu uma apuração preliminar sobre o caso, Sri Lanka, Austrália e Panamá. Em contrapartida, vários governos começaram uma reação nesta segunda-feira, 4, para tentar conter os danos provocados pela apuração.

Quase 35 governantes atuais e ex-líderes de países aparecem nos cerca de 11,9 milhões de documentos que vazaram de empresas de serviços financeiros de todo mundo e incluem dados sobre casas luxuosas na Riviera Francesa, em Monte Carlo e na Califórnia.

O primeiro-ministro do Paquistão, Imran Khan, prometeu investigar todos os cidadãos mencionados na investigação e "tomar as medidas cabíveis" se o delito for encontrado. "Saudamos os Pandora Papers, que expõem a riqueza ilícita das elites, acumulada por meio de evasão fiscal e corrupção e lavada em paraísos financeiros", tuitou Khan ainda no domingo.

O comentário de Khan foi feito em resposta a uma história dos Pandora Papers que revelou participações offshore de figuras-chave em seu círculo íntimo, incluindo seu ministro das finanças e um de seus principais financiadores. Khan assumiu o cargo em 2018 após prometer uma reforma após uma onda de indignação deflagrada por outra investigação jornalística internacional, o Panama Papers, que expôs as negociações offshore dos filhos do então primeiro-ministro do Paquistão, Nawaz Sharif.

Autoridades tributárias da Austrália, México, Espanha e Panamá fizeram comunicados públicos afirmando que estão acompanhando as denúncias reportadas e que vão investigar os possíveis crimes e indivíduos mencionados nos Pandora Papers.

Além disso, o governo do Panamá disse que iniciará uma "supervisão" dos fornecedores offshore mencionados nos Pandora Papers. Um desses fornecedores, um escritório de advocacia com sede no Panamá conhecido como Alcogal, desempenha um papel importante em ajudar a classe política da América Latina a criar empresas de fachada em paraísos fiscais. Também serviu a figuras envolvidas em alguns dos mais notórios escândalos de corrupção da história recente, incluindo o escândalo de futebol internacional conhecido como FIFAgate.

No Sri Lanka, os ministros da energia e dos portos disseram que a Comissão para Investigar Alegações de Suborno ou Corrupção terá que investigar os bens de qualquer político citado nos Pandora Papers. Nirupama Rajapaksa, um ex-ministro relacionado à família governante, é um dos vários políticos cujas negociações offshore.

As autoridades da República Checa tuitaram na segunda-feira que vão investigar as denúncias relacionadas ao primeiro-ministro, Andrej Babis, que está no meio de uma campanha de reeleição. Documentos revelados no Pandora Papers apontam que o político escondeu a propriedade de um castelo de US$ 22 milhões (cerca de R$ 119,6 milhões) no sul da França.

Negação total

Embora uma série de países com lideranças políticas citadas pelas reportagens tenha optado por afirmar uma preocupação com os fatos e se comprometer com uma investigação oficial sobre possíveis crimes, outros gabinetes de governo - ou chefes de Estado e governo mencionados - negaram totalmente as denúncias feitas pelos Pandora Papers.

Questionado durante um debate na televisão apresentado pela CNN Prima News se havia violado alguma lei em relação à compra da propriedade na França, Babis disse: "Claro que não ... foi dinheiro tributado". No Twitter, o premiê afirmou nunca ter feito nada ilegal e chamou as revelações de "tentativa de difamação" com o objetivo de influenciar a eleição que acontece no próximo fim de semana no país.

Na Rússia, pessoas associadas ao presidente Vladimir Putin foram mencionadas como proprietárias de ativos secretos em Mônaco, incluindo uma casa à beira-mar adquirida por uma mulher russa, apontada como mãe de um filho de Putin. Nesta segunda-feira, o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, considerou as denúncias infundadas.

"Estamos simplesmente diante de um caso de acusações totalmente sem fundamento", minimizou Peskov. E completou: "Não vimos nada sobre riqueza oculta dentro do círculo de Putin".

A Jordânia também afirmou serem "distorcidas" as revelações sobre ativos do rei Abdullah II em empresas offshore em paraísos fiscais. Segundo as reportagens, ele acumula um império imobiliário de US$ 100 milhões, da Califórnia a Londres.

Em um comunicado, o palácio real afirmou que as propriedades foram financiadas com a riqueza pessoal do rei e foram usadas para visitas oficiais e particulares. Também argumentou que é comum entre personalidades importantes comprar propriedades por meio de companhias offshore por questões de privacidade e segurança. "Algumas notícias publicadas sobre os bens imóveis do rei são inexatas, distorcidas e exageradas", afirmou o palácio real em um comunicado.

A mídia jordaniana, grande parte da qual é direta ou indiretamente controlada pelo palácio, não fez menção aos fatos. Até mesmo os meios de comunicação jordanianos independentes praticam a autocensura, evitando críticas ao rei, à família real e às forças de segurança./ Com informações de AFP e AP

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