Alexandre Meneghini/Reuters
Alexandre Meneghini/Reuters

Países da América Latina apostam em quarentena turística

Cuba e México buscam alternativas para driblar a queda no turismo que veio junto com a pandemia de coronavírus

Redação, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2021 | 05h00

HAVANA - Hotéis lotados em Havana, mas com as áreas comuns vazias. Essa é a cena em Cuba, onde autoridades determinaram o confinamento de estrangeiros em hotéis para cumprir a quarentena. Com isso, empresas criaram pacotes que são vendidos ainda no aeroporto. No México, os hotéis já fornecem pacotes com teste de covid-19 na tarifa e possibilidade de cumprir quarentena no sistema All Inclusive. Essas foram algumas das alternativas encontradas pelos países para driblar a queda no turismo que veio junto com a pandemia de coronavírus

O sol brilha em Havana, mas há uma bandeira vermelha nas piscinas de um hotel litorâneo, onde os quartos estão quase lotados de visitantes, cumprindo a quarentena para recém-chegados do exterior, decretada em Cuba contra a repercussão do coronavírus.

Diante do aumento de casos de covid-19 em Cuba no último mês, as autoridades estabeleceram que a partir de 6 de fevereiro, os estrangeiros e cubanos não residentes que chegam à ilha sejam isolados de forma obrigatória em um dos seis hotéis cedidos em Havana para esse fim, pagando-se as despesas de hospedagem.

“Foram criados vários pacotes que são oferecidos no aeroporto” ou na internet para se passar a quarentena, contou Isabel Docampo, diretora de marketing da agência Havanatur.

Os visitantes podem optar por se hospedar em hotéis de três ou cinco estrelas, com custos que variam de US$ 240 a US$ 500 por cinco noites e seis dias, o período que normalmente dura a quarentena. A maioria dos visitantes é de cubanos residentes nos EUA, apesar da redução dos voos deste país, México e Panamá recentemente encomendados pelas autoridades.

Na chegada ao aeroporto, cada viajante é submetido a um teste de PCR e transferido para um desses hotéis, onde permanece isolado até o quinto dia, quando deverá fazer um segundo teste. Se o resultado for negativo, ele pode sair do isolamento.

“Existem protocolos de isolamento, não podem transitar entre quartos, têm de se manter isolados, estão sendo monitorados pelo pessoal de saúde”, afirma Omar Milián Torres, diretor geral do Hotel Comodoro. A ocupação dos quartos de isolamento está entre 80 e 100 convidados.

Desde março último, foram detectados 21 casos positivos neste local, mas nenhum nos últimos cinco dias, acrescenta Milián.

Menos concorridos estão os hotéis de grande turismo, como o Meliá, onde cerca de 28 pessoas estavam em quarentena na quinta-feira. Esse hotel, com pacotes especiais, oferece serviço de cardápio personalizado e outras comodidades, além de duas visitas diárias de médicos para medição de temperatura e outros cuidados.

“Agora quem manda no hotel é o jaleco”, afirma Mariano Elorza, diretor-geral do Meliá Habana, que garante que o protocolo é muito rígido. Os trabalhadores gastronômicos usam luvas, bata e a interação com o cliente é mínima, afirma.

Apesar de enfrentar um aumento de casos, Cuba, com 11,2 milhões de habitantes, é um dos países menos afetados na região pelo coronavírus com 35.772 infecções e 254 mortes desde o início da pandemia, em março de 2020.

No México, turismo se adapta 

Com "tudo incluído", desde os testes de covid-19 até a hospedagem gratuita para os infectados, a indústria do turismo no México se esforça para se adaptar aos novos tempos e recuperar os milhões de visitantes perdidos pela pandemia.

Esses benefícios convenceram Natalia Garzón, uma colombiana de 38 anos que mora nos EUA, a passar um fim de semana em um resort no Caribe em Cancún, o que também reduziu sua taxa de ocupação em 40%. Garzón deve apresentar teste negativo para retornar aos EUA, como muitos países exigem dos viajantes internacionais.

Se ficar doente, pode ficar de quarentena no hotel pagando uma fração do preço ou até mesmo de graça, modalidade que vem sendo implementada por centenas de alojamentos no Estado de Quintana Roo, onde fica Cancún.

O hotel também paga pelo teste rápido de antígenos. “A crise do ano passado nos custou 20 milhões de turistas (-45% face a 2019) e US$ 13 bilhões (-54,1%)”, afirma Miguel Torruco, ministro do Turismo.

Com cerca de 175 mil mortes, o México é o terceiro país com mais luto em números absolutos devido ao coronavírus.  Mas também é um dos poucos destinos que não fechou fronteiras ou exigiu testes negativos, saltando do sétimo para o terceiro lugar nos países mais visitados em 2020.

No entanto, o Canadá - o segundo maior emissor de turistas para o México depois dos Estados Unidos - suspendeu seus voos para o Caribe mexicano entre janeiro e o fim de abril, um golpe que custaria 791 mil turistas ao país. Antes da epidemia, o turismo contribuía com 8,7% para o PIB mexicano.

Mais de 50% dos 1.129 hotéis da Riviera Maia já aderiram ao estímulo, segundo dados oficiais. “Custa menos que um anúncio” e permite “viabilizar o negócio”, afirma José Manuel López, presidente da Concanaco-Servytur, sindicato de serviços que inclui o turismo.

Os hóspedes são testados em um lounge no hotel Omni Cancun. Eles podem escolher entre o PCR, por US$ 100, ou o rápido, cortesia da casa. Eles são recebidos por um médico roupas protetoras, boné, máscara e luvas, uma visão incomum para um local de recreação.

Cerca de 13 mil exames diários são realizados em diversos estabelecimentos de Cancún, informa o governo local. Se alguém der positivo, ele é levado para uma das cinco salas designadas para quarentena - até 14 dias e 5% do preço - evitando áreas comuns.

Funcionários com roupas de proteção deixam três refeições por dia, lençóis e implementos na porta dos quartos, mas o hóspede deve limpar o local. Este protocolo não foi necessário até agora, dizem os administradores.

Ainda alheios a esta situação, os visitantes relaxam nas piscinas. Ao ritmo da salsa, uns tomam banho de sol, uns vão à praia e outros bebem no bar.

Em pequenos grupos e separados uns dos outros, eles só usam máscaras em locais fechados. Javier Pat, barman na área da praia, só tem medo da "fome". “Se o turista para de vir, não trabalhamos, por isso fazemos com que aproveite a estada, recomendamos e incentivamos a vir mais”, acrescenta Pat, que usa máscara.

Se o contágio persistir após a estadia gratuita de 14 dias, os hotéis Palace Resorts no México e na Jamaica oferecem tarifas com desconto. Para fazer isso, eles criaram uma "área secreta", diz seu site. Governo e empresários também avaliam incluir o custo do PCR nos pacotes. 

As instalações de realização de testes já estão operando nos principais aeroportos - Cidade do México e Cancún - e serão estendidas a oito terminais que recebem 96% dos estrangeiros, informou a Torruco.

Além disso, elaboram certificações sanitárias e homologam protocolos com hoteleiros dos EUA, origem de 56% dos visitantes.

Até 2021, o México espera 30,4 milhões de turistas estrangeiros e receitas de US$ 14,4 bilhões, contando com o sucesso da campanha de vacinação./AFP 

 

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