Francisco Seco/AP
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Países da UE aumentam restrições com terceira onda e atrasos na vacinação

Disparada do número de casos e de mortes por covid-19 força as principais nações do bloco a aumentar bloqueios em meio a novas disputas por doses de vacinas

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2021 | 05h00

BRUXELAS - As principais nações europeias planejam impor novas restrições nesta semana por causa do aumento rápido no número de casos e de mortes de covid-19, com temores de uma terceira onda acentuada pela dificuldade crescente de acelerar a vacinação e novas disputas internas por doses de imunizantes.

Em meio à tensão provocada pelo aumento de casos, um debate ferrenho sobre distribuição de vacinas dentro da União Europeia (UE) surgiu entre os países-membros do bloco. Segundo o jornal britânico Financial Times, os líderes de um grupo de estados europeus escreveram aos presidentes do Conselho Europeu e da Comissão Europeia queixando-se de “enormes disparidades” na distribuição de vacinas entre a nações do bloco. A carta, que foi assinada pela Áustria, Bulgária, Croácia, República Checa, Letônia e Eslovênia, apela a um debate sobre a “equidade na distribuição de vacinas” entre os países. 

A taxa de infecção na UE está agora em seu nível mais alto desde o início de fevereiro, graças à disseminação de novas variantes do vírus causador da covid-19. França, Alemanha e países do Leste Europeu devem impor novas medidas restritivas de bloqueio nos próximos dias – em contraste com o Reino Unido, que está começando, lentamente, a abrir comércio e escolas.

Na Itália, as autoridades registraram mais de 27 mil novos casos e 380 mortes apenas no sábado. A partir de hoje, a maior parte da país será colocada sob bloqueio e as pessoas só terão permissão para deixar suas casas para tarefas essenciais. A maioria das lojas estará fechada, além de bares e restaurantes.

Na França, as autoridades relataram uma “situação sombria”. O ministro da Saúde, Olivier Véran, descreveu o cenário na região da Grande Paris como “tenso” e “preocupante”. “A cada 12 minutos, noite e dia, um parisiense é internado em uma cama de terapia intensiva”, disse. O presidente Emmanuel Macron impôs toques de recolher em várias regiões e especialistas da área da saúde estão pressionando o governo para decretar um bloqueio nacional com urgência.

Na Alemanha, 12.674 novas infecções por covid-19 foram relatadas no sábado, um aumento de 3.117 em relação à semana anterior, e o chefe da agência de doenças infecciosas do país reconheceu que o país estava agora nas “garras de uma terceira onda da covid-19”.

Distribuição de vacinas é alvo de contestação na UE

Para agravar o problema, a Europa enfrenta uma escassez de doses. No fim de semana, líderes de um grupo de nações europeias reclamaram de “enormes disparidades” na distribuição de vacinas. Outros Estados-membros rejeitaram a acusação e alegam que os países deveriam “reclamar de suas próprias decisões de compra”. A comissão defendeu o sistema, dizendo que a alocação das doses seguiu um “processo transparente”.

No sábado, a gigante farmacêutica AstraZeneca anunciou um novo atraso no embarque de suas vacinas contra a covid-19 para a UE. A empresa anglo-sueca confirmou aos Estados-membros que entregará apenas 30 milhões de doses no primeiro trimestre do ano. A gigante farmacêutica diz que agora planeja entregar apenas 70 milhões de doses no segundo trimestre do ano, em vez de 180 milhões. A empresa alega não ter conseguido suprimentos para fabricação da vacina fora da UE por causa das restrições às exportações praticadas em todo o mundo.

Os atrasos na entrega voltaram a chamar a atenção para o sistema de divisão do produto na Europa. A disputa atual se concentra em torno da distribuição de uma entrega acelerada de 4 milhões de doses de vacinas da Pfizer-BioNTech, disseram diplomatas, enquanto os Estados-membros lutam para obter vacinas o mais rápido possível.

Embora todos os países da UE tenham o direito de compartilhar todas as vacinas compradas pela Comissão Europeia com base nas suas populações, eles podem optar por comprar mais ou menos de cada vacina conforme desejarem. Quaisquer doses não utilizadas podem ser adquiridas por outros Estados-membros.

Vários países decidiram no começo do processo de aquisição comprar mais doses da AstraZeneca e menos dos produtos da Pfizer e da Moderna, os dois primeiros a receber a aprovação regulatória dentro do bloco. Esses países agora estão atrasados nas entregas por causa dos problemas de produção da AstraZeneca.

A maioria dos países optou por comprar os imunizantes da AstraZeneca compartilhados pela Comissão Europeia porque a empresa tinha uma grande rede internacional de fornecimento e parecia chegar ao mercado rapidamente, disse um diplomata ao jornal britânico Financial Times. A vacina da empresa é muito mais barata que as outras duas e não requer o armazenamento em temperatura ultrabaixa que as concorrentes exigem. “Na hora da contratação, a AstraZeneca parecia ser a mais rápida no desenvolvimento e a de maior capacidade”, disse ao Financial Times o diplomata.

Sebastian Kurz, o chanceler austríaco e um dos signatários da carta aberta, tuitou ontem que se a distribuição atual continuar “resultará em um tratamento desigual significativo que devemos evitar”.

No entanto, a comissão disse que foram os próprios Estados-membros que decidiram não usar o sistema de distribuição proporcional pela população. “Há total transparência entre os Estados-membros quanto a quem recebe e em qual quantidade”, uma vez que as atribuições são decididas por um conselho de gestão de aquisições em que todos têm assento, destacou a Comissão Europeia. A questão da mudança na distribuição da vacina será debatida na próxima cúpula da UE, em 25 e 26 de março. / AP, W.POST e NYT

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