TV Estadão | 03.09.2015
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Países da UE resistem a plano de cotas

Hungria, Polônia, República Checa e Eslováquia, além da Dinamarca, não aceitam proposta da Comissão Europeia para acolher refugiados

Andrei Netto - CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S. Paulo

11 Setembro 2015 | 20h35

Ministros das Relações Exteriores do Grupo de Visegrad – formado por Polônia, República Checa, Eslováquia e Hungria – recusaram-se nesta sexta-feira, 11, em Praga, a apoiar o projeto de cotas para acolhimento de refugiados proposto pela Comissão Europeia, que também tem a oposição da Dinamarca. A sinalização negativa foi dada após uma reunião entre os chanceleres dos quatro países e o ministro das relações Exteriores da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier. Avançar no debate é condição para que as cotas sejam aprovadas na cúpula que será realizada na segunda-feira, em Bruxelas.

A recusa foi expressada pelos ministros mesmo após os apelos feitos pela Alemanha por respeito “aos valores europeus” simbolizados pela concessão de refúgio e asilo político. Os países do Grupo de Visegrad estão na linha de frente da crise migratória, porque são corredores de passagem de uma das rotas que ligam a Síria e o Iraque à Alemanha. A Dinamarca, outro país de trânsito dos estrangeiros, para os que desejam se instalar na Suécia, também informou ontem que não pretende participar do sistema proporcional de distribuição de refugiados proposto pelo presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker.

A reunião de urgência foi realizada porque a Alemanha vem recebendo dezenas de milhares de pessoas nas últimas semanas. De acordo com Steinmeier, a previsão é a de que 40 mil refugiados cheguem ao território alemão apenas neste final de semana. “Talvez seja o maior desafio da história da União Europeia”, afirmou o ministro. Segundo ele, os números são dramáticos e, “mesmo com a boa vontade do povo alemão”, estão sobrecarregando as estruturas do país para o acolhimento de estrangeiros. 

“Um só país não pode gerenciar esse número. Nós precisamos da solidariedade europeia”, argumentou Steinmeier. “Se fecharmos as fronteiras, nós trairemos nossos valores. Devemos encontrar uma solução europeia comum. É a única possibilidade.” 

Negociação. Em troca da adesão dos países do leste, o ministro acenou com a criação de uma política de repatriamento mais eficaz, de uma lista de “países seguros” de onde imigrantes não seriam aceitos e com maior proteção das fronteiras exteriores do bloco.

Mas, segundo o executivo alemão, o plano de Bruxelas para receber em dois anos 120 mil refugiados de Síria, Iraque e Eritreia, além dos 40 mil já em curso de admissão, não é suficiente para enfrentar a demanda, que deve chegar a 800 mil apenas em 2015 na Alemanha. 

“Disse aos meus colegas que não devemos falar apenas dos que estão neste momento na Alemanha e na Europa, mas que será necessário entrar em acordo sobre uma repartição justa dos que ainda estão a caminho”, justificou Steinmeier.

Barreiras. A resposta do governo da Hungria, o país mais reticente em relação à política de cotas, foi intransigente. Na reunião, o representante de Budapeste propôs a realização de uma cúpula de países da UE, com a participação da Sérvia e da Macedônia. Mas seu primeiro-ministro, Viktor Orbán, voltou a demonstrar disposição de “defender” a fronteira, em especial, com a Grécia. “É preciso agir rápido para criar as bases legais do deslocamento de uma força europeia nas fronteiras da Grécia a fim de aplicar a legislação da União Europeia”, exortou, referindo-se a uma suposta “rebelião de imigrantes”.

Lubomir Zaoralek, ministro das Relações Exteriores da República Checa, afirmou que os países que aceitam receber refugiados devem ter o controle sobre o número de estrangeiros que entram em território do bloco europeu.

Na falta de um acordo, horas mais tarde, o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, advertiu que poderá convocar uma reunião de cúpula extraordinária se não houver acerto entre chefes de Estado e de governo na segunda-feira, em Bruxelas. “Na falta de um sinal de solidariedade e de unidade dos ministros na segunda, eu convocarei um Conselho Europeu extraordinário em setembro sobre a crise dos refugiados”, garantiu em declaração feita pelo Twitter. “Depois dos contatos dos últimos dias com países-membros, estou mais otimista quanto a uma solução de consenso e solidariedade verdadeira”, acrescentou.


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