Países diferentes e a mesma guerra

Batalhamos séculos para aprender a tolerar o 'outro'; agora, o mundo árabe tem de fazer isso

Thomas L. Friedman*, O Estado de S.Paulo / The New York Times

10 de setembro de 2013 | 02h12

Por acaso, vocês viram a notícia da Líbia - o último país que bombardeamos porque seu líder cruzou uma linha vermelha ou estava prestes a fazê-lo? Eis uma notícia sobre a Líbia de 3 de setembro no jornal britânico The Independent. "A Líbia mergulhou despercebidamente na pior crise política e econômica desde a derrota de Kadafi há dois anos. A autoridade do governo está se desintegrando em todas as partes do país, pondo em dúvida as afirmações de políticos americanos, britânicos e franceses de que a ação militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) de 2011 foi um exemplo excepcional de intervenção militar bem-sucedida, que deveria ser repetida na Síria (...) A produção do petróleo de alta qualidade da Líbia caiu de 1,4 milhão de barris por dia no começo deste ano para apenas 160 mil barris por dia agora."

Tenho lido repetidamente sobre como o Iraque foi a guerra ruim, a Líbia foi a guerra boa, o Afeganistão a guerra necessária, a Bósnia a guerra moral e a Síria, agora, outra guerra necessária. Querem saber? Elas são a mesma guerra.

São todas histórias que acontecem quando sociedades multissectárias, em sua maioria muçulmanas ou árabes, são mantidas coesas por ditadores governando de cima para baixo, com punhos de ferro, e depois esses ditadores são derrubados, seja por forças internas ou externas. E são todas histórias de como o povo desses países responde ao fato de que, após a queda do ditador, eles só podem ser governados horizontalmente - pelas próprias comunidades constituintes escrevendo seus próprios contratos sociais sobre como viverem coesos como cidadãos iguais, sem um punho de ferro. E, como já tive a oportunidade de dizer, são todas histórias de como é difícil ir de Saddam a Jefferson - do regime vertical ao regime horizontal - sem cair em Hobbes ou Khomeini.

Na Bósnia, após muita limpeza étnica entre comunidades beligerantes, a Otan entrou, estabilizou e codificou o que é, para todos os efeitos, uma partilha. Nós agimos no terreno como "o exército do centro". No Iraque, derrubamos o ditador e aí, depois de cometer todos os erros concebíveis, fizemos as partes escreverem um novo contrato social. Para torná-lo possível, policiamos as linhas divisórias entre seitas e eliminamos uma porção dos piores jihadistas nas fileiras xiitas e sunitas. Agimos no terreno como o "exército do centro". Mas depois saímos antes que alguma coisa pudesse criar raízes. Idem no Afeganistão.

A equipe de Obama procurou ser mais esperta na Líbia: nada de soldados no terreno. Assim, nós decapitamos um ditador agindo pelo ar. Mas depois nosso embaixador foi assassinado porque, sem soldados no terreno para arbitrar e agir como o exército do centro, Hobbes se impôs a Jefferson.

Se fôssemos decapitar o regime sírio do ar, a mesma coisa provavelmente ocorreria na Síria. Para haver alguma chance de um resultado democrático multissectário na Síria, seria preciso vencer duas guerras no terreno: uma contra a aliança governante de Assad - alauitas, iranianos, Hezbollah, xiitas - e, uma vez terminada esta, seria preciso derrotar os islamistas sunitas e jihadistas pró-Al-Qaeda. Sem um exército do centro (que ninguém fornecerá) para respaldar as poucas unidades decentes do Exército Sírio Livre, ambas serão lutas extenuantes.

Existe centro nesses países, mas ele é fraco e desorganizado. É que são sociedades pluralistas - misturas de tribos e seitas religiosas, a saber, xiitas, sunitas, cristãs, curdas, drusas e turcomenas -, mas lhes falta senso de cidadania ou a ética profunda do pluralismo. Isto é, tolerância, cooperação e compromisso. Elas puderam se manter coesas enquanto havia um ditador para "proteger" (e dividir) todos de todos os demais. Mas quando o ditador some, e a sociedade é pluralista, mas sem pluralismo, não se pode construir nada porque não há confiança suficiente para uma comunidade ceder poder a outra - não sem um exército do centro para proteger todos de todos.

Em suma, o problema agora em todo o Oriente árabe não é apenas gás venenoso, mas corações envenenados. Cada tribo ou seita acredita que está numa luta de governar ou morrer contra as demais, e quando todos acreditam em algo assim, este algo se torna realizável. Isso significa que Síria e Iraque provavelmente se desenvolverão como unidades étnicas e religiosas autogovernadas, em grande parte homogêneas, como o Curdistão. E, se tivermos sorte, essas unidades encontrarão um modus vivendi, como ocorreu no Líbano após 14 anos de guerra civil. E aí, quem sabe, com o tempo, essas unidades menores voluntariamente se unirão em Estados maiores e mais funcionais.

Ainda acredito que nossa resposta ao ataque químico de Assad deveria ser "armas e vergonha", como escrevi recentemente. Mas, por favor, me poupem do sermão de que a credibilidade dos EUA está em jogo aqui. Mesmo?

Sunitas e xiitas vêm brigando desde o século 7.º sobre quem é o real herdeiro da liderança espiritual e política do Profeta Maomé, e é a nossa credibilidade que está em jogo? Mesmo? Sua civilização perdeu toda grande tendência global moderna - reforma religiosa, democratização, feminismo e capitalismo empresarial - e é a nossa credibilidade que está em jogo? Não acredito.

Nós batalhamos por muito tempo, e continuamos batalhando, para aprender a tolerar "o outro". Essa luta precisa ocorrer no mundo árabe muçulmano. Qual é a diferença entre o despertar árabe em 2011 e a transição para a democracia da África do Sul nos anos 90? Os EUA? Não. A qualidade da liderança local e o grau de tolerância.

*Thomas L. Friedman é jornalista.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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