Tomas Munita/The New York Times
Tomas Munita/The New York Times

Países do Golfo, as novas potências que emergiram da Primavera Árabe

Monarquias como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Catar ganharam mais destaque e visibilidade após desestabilização de Síria, Líbia, Egito e Tunísia

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2020 | 12h00

O declínio dos regimes autoritários com a eclosão da Primavera Árabe abalou os países do Golfo. Mas dez anos após o enfraquecimento de seus vizinhos, as monarquias da península se tornaram o centro de gravidade do Oriente Médio.

"O enfraquecimento dos centros tradicionais de poder fez do Golfo, pela primeira vez na história moderna, o centro do poder árabe", observa Bader Al Saif, professor associado de história da Universidade do Kuwait.

Em 2011, o tsunami revolucionário que varreu a região desestabilizou as antigas elites governantes, vistas como corruptas, repressivas e incompetentes. Na Tunísia e no Egito, as manifestações derrubaram os regimes autoritários dos presidentes Zine el Abidine Ben Ali e Hosni Mubarak. Na Síria, Líbia e Iêmen, levaram à guerra civil.

Outrora faróis culturais e promotores do pan-arabismo, o Egito está agora apenas nas notícias por suas violações de direitos humanos e pobreza. E a Síria e o Iraque pelo caos que os destrói. O cenário de desolação contrasta com a prosperidade do Catar ou dos Emirados Árabes Unidos, onde o conforto de arranha-céus atrai milhões de expatriados.

O movimento também abalou o Golfo. Mas os levantes revolucionários em Omã, e especialmente no Bahrein, foram cortados pela raiz, com a intervenção armada em Manama da Arábia Saudita.

A Primavera Árabe abriu os olhos dos países do Golfo, parceiros próximos de Washington, dos quais observaram uma atitude relutante, enquanto os regimes amigos estavam em dificuldades no Egito ou no Bahrein. “Eles perceberam que deveriam assumir o controle da situação e que os Estados Unidos não ofereciam garantias perpétuas de segurança”, explica Al Saif.

Este foi um ponto de inflexão, embora os países do Golfo tenham preparado sua ascensão muito antes de 2011, dizem os especialistas. “A Primavera Árabe não deu início a essa tendência, ela a acelerou e a destacou”, principalmente nos Emirados e no Catar, analisa Abdelkhakeq Abdallah, professor de ciências políticas dos Emirados Árabes Unidos.

A Arábia Saudita já era um peso-pesado, como principal exportador mundial de petróleo bruto e lar dos lugares mais sagrados do Islã. Mas o Catar "usou a Primavera Árabe em seu próprio benefício", desempenhando um "papel" ao cobrir os acontecimentos na rede de televisão Al Jazeera e com o sucesso temporário de partidos islâmicos, principalmente na Tunísia e no Egito, defende Abdallah.

Os Emirados Árabes Unidos, por sua vez, aproveitaram para se apresentar como um "porto seguro", atraindo investidores, em especial Dubai, um dos sete principados do país que buscam se recuperar da crise econômica de 2010.

Virada

Dez anos depois, em um Oriente Médio devastado por conflitos e empobrecimento, a Arábia Saudita lidera o G20, o Catar se prepara para sediar a próxima Copa do Mundo e os Emirados Árabes enviam astronautas ao espaço.      

Essa ascensão é acompanhada por uma "rivalidade de poderes", enfatiza Emma Soubrier, pesquisadora do Arab Gulf States Institute, com sede em Washington. Em 2017, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos romperam relações com o Catar, acusados ​​de apoiar movimentos islâmicos, o que o país nega.

Na Líbia, Abu Dhabi apoiou o marechal Khalifa Haftar contra as forças do governo reconhecidas pela ONU, acusadas de conluio com islâmicos e apoiadas pela Turquia e Catar, próximo ao movimento transnacional da Irmandade Muçulmana.

A intervenção na Líbia, sem mandato da ONU, foi "uma mensagem enviada aos parceiros ocidentais de que os Emirados Árabes são agora uma potência regional capaz de garantir os interesses que defendem", afirma Emma Soubrier. Algo que também funciona para a Arábia Saudita, que intervém militarmente no Iêmen desde 2015 para apoiar as forças do governo contra os rebeldes hutis, apoiados pelo Irã, grande rival de Riad.

O Golfo agora mostra abertamente suas opções diplomáticas, como a reaproximação com Israel, com quem os Emirados e Bahrein normalizaram oficialmente as relações em setembro. Enquanto isso, alguns países optaram por um recuo nacionalista, rejeitando o "pan-arabismo e pan-islã", que ressurgiu com a Primavera Árabe, analisa o pesquisador saudita Eman Alhussein./ AFP

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