Países do Golfo vêem com cautela coalizão antiterror

Em 1990, o então presidente George Bush não teve que se esforçar muito para persuadir nações do Golfo Pérsico a participar de uma coalizão internacional para expulsar o Iraque do Kuwait. Agora, seu filho quer que elas se unam a uma nova coalizão para combater o terrorismo - mas os velhos aliados estão hesitantes.Desta vez, os objetivos parecem ser muito menos definidos."Quem é o inimigo? É um inimigo comum? É o terrorismo? É Osama bin Laden? Os Estados Unidos precisam responder a essas perguntas e convencer o mundo, especialmente os mundos árabe e muçulmano, antes de atacar uma nação muçulmana", disse Abdul Khaleq Abdulla, um analista político dos Emirados Árabes Unidos.Em 1990, "o inimigo estava estabelecido e as questões eram claras. Não é o caso agora", acrescentou.Os Estados Unidos têm identificado o exilado saudita Bin Laden como o provável instigador dos ataques terroristas de 11 de setembro, e têm advertido o Afeganistão - onde Bin Laden se refugiou - que sofrerá retaliação caso não o entregue.A maioria das nações árabes e muçulmanas condenaram os ataques e dizem que pretendem cooperar com Washington em sua luta contra o terrorismo.Mas poucas se comprometeram a dar apoio militar, como o uso do espaço aéreo ou bases.Os Estados Unidos ainda têm de apresentar evidências concretas em seu caso contra Bin Laden aos possíveis parceiros da aliança, mesmo que não seja publicamente. Washington também não disse exatamente o que quer dos aliados na coalizão.Existe ressentimento por parte de alguns no Golfo que julgam que, ao invés de responder às questões, os EUA estão exercendo pressão, real ou velada, para conseguir apoio para sua provável campanha militar.O Egito, uma grande força política no mundo árabe, tem descartado participar de uma coalizão militar e indicou que qualquer resposta deve ser dada sob os auspícios das Nações Unidas.O Irã, que não tem simpatias nem pelos Estados Unidos nem pelo vizinho Afeganistão, argumentou nesta quarta-feira que a prometida guerra contra o terrorismo deve ser uma campanha total promovida por todas as nações."Intensificar e complicar a atual crise e expandi-la para todo o mundo, não beneficiará qualquer governo ou nação, e para nos livrarmos desse mal precisamos ser pacientes, mais do que antes, e evitar buscar qualquer revanche apressadamente", afirmou o presidente iraniano, Mohammad Khatami, numa mensagem enviada ao primeiro-ministro britânico, Tony Blair.A Arábia Saudita tem dito que vai cooperar plenamente com os EUA - mas não chegou a dizer publicamente que isto significa colaborar com uma campanha militar. O reinado saudita é tanto um destacado aliado dos EUA no Oriente Médio como um dos três unicos países que reconhecem o governo linha-dura do Taleban no Afeganistão.O ministro do Exterior saudita, Saud al-Faisal, se dirigia nesta quarta aos Estados Unidos para reunir-se com o presidente George W. Bush e o secretário de Estado, Colin Powell.Os sauditas "entendem claramente que é tanto do interesse deles como do nosso que ponhamos fim a esse tipo de atividade e que ponhamos fim a esse tipo de terrorismo internacional", disse o vice-presidente americano, Dick Cheney, à rede NBC.O pedido dos EUA coloca os governos do Golfo numa encruzilhada, disse o professor Hasan al-Ansari, da Universidade de Catar - uma escolha entre ficar do lado de Washington ou se arriscar a parecer em discordância com a superpotência econômica e militar do mundo."No atual cenário internacional, os Estados árabes não podem estar num front diferente daquele dos EUA", disse al-Ansari.Nos Estados do Golfo, o chamado de guerra dos EUA já sofre oposição de alguns grupos muçulmanos e clérigos, que dizem que atacar uma nação islâmica vai contra os ensinamentos do Corão.Clérigos na Arábia Saudita, Catar, Paquistão e outros Estados muçulmanos têm condenado os atentados terroristas da semana passada nos EUA, mas afirmam que, sem provas, lançar ataques contra o Afeganistão é um pecado.No Paquistão, uma nação islâmica de 140 milhões de habitantes, manifestantes têm queimado bandeiras e bonecos representando os líderes paquistanês e americano nos últimos dias, condenando o presidente general Pervez Musharraf por concordar em ajudar os EUA a perseguir bin Laden.A presença de tropas americanas no Golfo, hoje totalizando 25.000 militares em terra e mar, também tem sofrido oposição, algumas vezes violenta.Dois atentados à bomba em 1995 e 1996, promovidos por militantes contrários à presença das tropas dos EUA na Arábia Saudita, lar dos dois locais mais sagrados do Islã, mataram 24 americanos.O Irã, que se opõe à presença militar americana no Golfo, tem pedido aos países da região para contarem com eles mesmos ao invés de contarem com as forças dos EUA."Washington está usando a presença de suas tropas nos Estados do Golfo para pressionar esses países a curvarem-se a todas exigências americanas", reclamou o analista saudita Akeel al-Inizi.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.