Países muçulmanos rejeitam explicações do papa e protestos continuam

Manifestantes em diversos países muçulmanos continuaram pedindo por desculpas do papa, que na última semana fez comentários considerados ofensivos ao Islã. A Malásia, que lidera o maior bloco muçulmano do mundo, disse que o fato de o papa ter lamentado a fúria gerada por seu discurso não é suficiente.Mesmo na China, onde o governo exerce forte controle sobre as religiões, um clérigo importante disse que Bento XVI insultou os muçulmanos do país. A raiva devido às declarações do papa no último dia 12 - quando ele citou um texto que afirmava que os ensinamentos do fundador do Islã eram "maus e desumanos", e se referia à divulgação do islamismo "pela espada" - continua, apesar de repetidas afirmações de arrependimento do Vaticano e do próprio pontífice. O Vaticano já publicou duas declarações separadas expressando arrependimento em relação às afirmações, que causaram uma das maiores crises internacionais envolvendo a Igreja Católica em décadas. Bento XVI afirmou "lamentar muito" que seu discurso tenha ofendido os muçulmanos. Ele afirmou que as suas palavras não refletem as suas próprias opiniões. "Espero que isso sirva para aplacar os corações e para esclarecer o real significado da minha declaração, que era um franco e sincero convite ao diálogo, com grande respeito mútuo", disse o papa durante sua aparição semanal aos peregrinos. A crise criada pela declaração do papa é a mais séria desde fevereiro, quando uma onda de violentos protestos varreu o mundo muçulmano em decorrência da publicação, em jornais da Europa, de charges ironizando o profeta Maomé. Muçulmanos declararam que os desenhos eram ofensivos à sua religião. As declarações do papa também geraram raiva, e manifestantes em diversos países muçulmanos continuam a demandar por um pedido de desculpas nesta segunda-feira. Na Caxemira indiana, lojas e escolas fecharam em resposta a uma greve convocada por Syed Ali Shah Geelani, líder da facção linha-dura Conferência dos Partidos Hurriyat. Pelo terceiro dia seguido, manifestantes queimaram pneus e entoaram slogans contra o sumo pontífice. Manifestantes também protestaram na cidade de Muzaffarabad, na Caxemira paquistanesa. "Sua desculpa não foi o suficiente pois ele não afirmou estar errado", disse Uzair Ahmed, do grupo político paquistanês Pasban-e-Hurriyat. Ainda no Paquistão, o ex-premiê malaio MahathirMohamad disse na televisão nacional que o papa teria esquecido que o cristianismo é que se espalhou através da espada durante as cruzadas. A Malásia, que possui 57 membros da Organização da Conferência Islâmica, afirmou esperar que os comentários do papa "não reflitam uma nova linha política do Vaticano em relação à religião islâmica". "A declaração do papa, na qual afirma lamentar pela reação e raiva, é inadequada para aclamar a raiva, ainda mais por ser o mais alto líder do Vaticano", afirmou o ministro do Exterior malaio Syed Albar, de acordo com a agência de notícias Bernama. Na China, Chen Guangyuan, presidente da Associação Islâmica da China, afirmou que Bento XVI insultou tanto o Islã quanto o Profeta Maomé. "Isso (declaração do papa) feriu gravemente os sentimentos dos muçulmanos de todo o mundo, inclusive os chineses", afirmou em entrevista à agência de notícias chinesa Xinhua. Em Jacarta, Indonésia, mais de cem manifestantes caminharam pelas ruas da cidade até a embaixada do Vaticano na cidade. "Seus comentários realmente feriram os muçulmanos em todo o mundo", disse Umar Nawawi, da Frente de Defensores Islâmicos. "Nós devemos lembrá-lo a não dizer esse tipo de coisa, que só pode fomentar uma guerra santa."

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